TE BUSCO
Uma fisgada na perna,
E o dorso do pente a cruzar-me os dedos.
Dia quente,
Sol a pino.
Machos que são fêmeas,
Meninas que são meninos.
Quer o meu amor?
Entre na fila e aguarde a tua vez.
A fila é grande,
A fila anda.
Eu sou a bola da vez.
Tu te achas o último biscoito do pacote,
Mas não és essa coca-cola toda.
Muito pelo contrário,
Esse gato solta pêlo,
Tem gato nessa tuba,
Essa coca é fanta.
Se me quisesses mesmo,
Acordarias mais cedo,
Entrarias na fila,
E pegarias a senha.
Afinal de contas,
Me amas ou me enganas?
No frigir dos ovos,
És uma mulher ou uma ratazana?
Não sei quase nada de ti,
Aquilo que me contas não quero saber,
Por isso:
Te busco.
A nossa história não nos pertence,
querida.
querida.
Quando penso em ti,
Sinto os braços dormentes.
Quando pensas em mim,
Sentes dor de dente.
A minha vida tem sido
muito difícil, sabe?
Nos últimos três segundos,
Não lembro de ter te amado.
Mesmo assim,
Delicado e inocente,
Tenho a alma latente.
Pareces aquele bicho que come gente,
Semente,
Indecente,
Adstringente,
Aguardente,
Tens a alma al dente.
Às vezes acordo com febre,
A cabeça fria,
O corpo quente.
Tenho a alma doente.
Por isso:
Te busco.
Te busco.
Amar-te,
É como caçar ratos num barril.
Fácil demais para ser verdade.
Quando a esmola é muita,
O diabo desconfia.
Mas contigo,
O inferno deve ser o paraíso.
O inferno deve ser o paraíso.
Não,
O inferno nunca é o paraíso.
Mas se para lá mudares,
Mudo contigo.
A mudança é a única
coisa constante,
E permanente no universo.
Mas quando olho-me no espelho,
És constante e permanente,
E a “coisa” sou eu.
O amor é um lugar para crescer, querida.
Não sei viver sem arder,
Por isso:
Te busco.
A comunicação,
É a arte
É a arte
de materializar o pensamento.
A fala,
O gesto,
O andar,
A forma de olhar,
A literatura,
A pintura,
A dança,
E tudo mais,
Informa ao outro,
Do que o outro é capaz.
Portanto,
Eu acho que o policial deve ter
se equivocado,
Pois meus óculos escuros são pretos,
E parecem um celular.
Preciso de um pouco de resiliência,
Açúcar,
Afeto,
E uma xícara de concreto.
Por isso:
Te busco.
Não sabendo ao certo quem sou,
Permití-me ser qualquer coisa.
Preciso de proteína para ficar forte,
Preciso de um pouco de sorte,
Porque Darwin não fala de evolução,
Mas de seleção natural.
Contudo,
Não me sinto melhor que os gregos,
Só porque uso à internet,
E falo ao celular para voar.
Não me sinto melhor que os gregos,
Só porque Ícaro tem asas de cera,
E eu,
A solidão de te amar.
Então dizer que o amor está morto,
É um absurdo atroz.
Só em ouvir-te dizer isto,
Meus cabelos dão nós.
Não sou ateu nem agnóstico,
Muito menos gnóstico,
Sou ignorante,
Não sei nada de nada.
Quando me perguntam algumas coisa,
E não sei responder,
Abro a boca,
E como uma rabanada.
Não sei nada de nada,
Nem ao menos quem sou.
Tenho uma série de perguntas
sem respostas,
Tenho a alma de costas.
De costas,
Para o pelotão de fuzilamento.
Sim,
Tenho a alma nas costas,
O espírito cheio de apostas,
Sou um croupier,
Que joga sem saber,
Tenho a sorte de principiante,
Por isso sou o amante,
Que ninguém quer perder.
Tenho uma série de questionamentos,
Viver sem Deus,
É um anacronismo enorme.
É um anacronismo enorme.
Portanto,
Não posso dar a Deus todos as qualidades
e defeitos do homem.
Para tal,
Precisaria dar-lhe um sobrenome,
Mas se chamo-o de Deus,
Qual será o seu nome?
Não sei.
Por isso:
Te busco.
O ser imaterial,
E a alma carnal,
O homem foi feito para a sociedade,
Mas a sociedade não foi feita para o homem.
Por isso nasci lobisomem.
Sou tudo e não sou nada,
Caibo em tudo e não caibo em nada,
Mas estou lá:
No prato,
No mato,
Na sola do sapato,
No livro e no umbigo,
Dentro e fora do perigo.
O grito!
Escândalo!
Radicalismo e fundamentalismo,
não dá.
Não dá mais, rapaz.
Chame o capataz,
Mande dar-me uma surra,
Acabe logo comigo.
Porque se me deixares solto,
Corres perigo.
Não foi o homem que inventou Deus?
Ó pés,
Tragam-me mil carretéis!
Só quero saber de ti e dos meus papéis,
O resto que fique para depois.
Inventamos deuses,
Tentamos dar nomes aos bois.
Meu Deus não é o mesmo que o teu,
Meu Deus não é o Senhor da Guerra.
Meu Deus é soberanamente
justo e bom.
Meu Deus é tão doce,
Que cabe numa caixa de bombom.
É Ele que me dá um pé novo,
Quando o calo aperta.
Por isso:
Te busco.
Guardo migalhas no bolso,
E um pouco de café debaixo do travesseiro.
Guardo amor na sola dos sapatos,
E um pouco de Shakespeare
para mais tarde.
Sim,
Para mim existe aquele que é
o Criador
de todas as coisas,
Mas para ti,
A autonomia da ciência
explica tudo.
Para mim é difícil digerir a contradição:
Ciência e religião.
Mas ambos sabemos,
Que não somos os mesmos de ontem,
Embora “a casca” seja a mesma,
A alma viceja.
Mesmo sendo tão diferentes,
Através do diálogo,
Conseguimos materializar
o pensamento.
Mas sem o teu lamento,
Minha vida é um sofrimento.
Por isso ouço Celia Cruz,
Por isso o amor me conduz,
Por isso:
Te busco.
¡Azúcar!
Por isso ouço Celia Cruz,
Por isso o amor me conduz,
Por isso:
Te busco.
¡Azúcar!
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Impagável, Betto. O seu blog é lindo, textos geniais, muita criatividade, estilo, sabedoria e talento. Só me resta dizer: Sucesso, cara! Sucesso!
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