MARACATU ATÔMICO






Fernando Pessoa caminhava pelas ruas de Lisboa, levando debaixo do braço, a alma de Luíz de Camões. Debilitado pela cirrose hepática, caminhava lentamente, como quem fosse resignado, para o cadafalso.  Era um homem pacato, daqueles que é impossível ver e não pedir a benção. Um homem que escreveu incessantemente, desde o berço ao leito de morte. Só pode ser de uma profunda beleza, o homem que diz: “a minha pátria é a língua portuguesa”. O mesmo homem que mergulhou “No Túmulo de Christian Rosenkreutz”, saiu ileso dessa história. A poesia era-lhe parte inerente. Um homem mergulhado em si mesmo, vendo o outro pelas frestas da alma. Persianas abertas, lá estava ele: Mirando o mundo a sua volta. Persianas fechadas, lá ia ele: trabalhar. Um grande homem, um grande fado, um exímio sonhador.       

Por isso hoje acordei de repente, e vendo minh’alma ausente, cheguei à janela, e eis que passava diante de mim, o meu coexistível. Foi assim que vi Fernando Pessoa caminhar pelas ruas de Lisboa, levando debaixo do braço, a alma de Luíz de Camões.



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Comentários

  1. Caro Betto, se Fernando Pessoa lesse o seu texto, certamente ficaria agradecido por inspirar algo tão sublime, em um escritor tão talentoso. Linda homenagem, meu rei! Você é um dos maiores escritores de todos os tempos. Pode escrever: Você vai longe! Abraços, fera!

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