MANIFESTO SANTA TERESA
À memória do motorneiro Nélson e de todas as vítimas da tragédia do bonde de Santa Teresa. Um abraço especial aos parentes das vítimas, representados pela senhora Dulce Araújo da Silva e pelo senhor Nelson Araújo Correa Silva, esposa e filho do motorneiro Nélson, respectivamente.
Deus abençoe.
Meus sinceros sentimentos,
Deus abençoe.
Meus sinceros sentimentos,
Betto Barquinn.
O acidente do bonde de Santa Teresa é coisa muito triste. Triste mesmo. Tão triste que leva-me às lágrimas. Triste porque foram muitas vidas ceifadas. Triste porque famílias ficaram órfãs. Triste porque o motorneiro Nélson Correa da Silva, protagonista dessa história, foi embora. Ele era um homem bom. Um espírito fadado à superação. Um herói de carne e osso, com um coração grandioso. Ele fez o que pôde. É claro que não é culpado: Os heróis não largam o seu posto. Os heróis ficam ali até o final. Só os ratos abandonam o navio. Os homens de boa fé, não. Mas está na moda culpar a vítima. Ridículo. Agora a vítima é que é o culpado? Será que alguém que deu a vida por um ideal, deve ser condenado? Por favor, insanidade tem limites. Os nossos governantes não fazem nada e o povo é que paga. Aí o herói vira culpado, o homem de bem vira vilão, o bom caráter é chamado de ladrão. Só falta agora abolirem a liberdade de expressão. Aí a Ditadura volta e novamente seremos proibidos de pensar. Raciocinar é um ato de cidadania. "Amém doutor" ‘é os cambau!’. Manifeste-se! Que sociedade é esta que se nos apresenta? Que políticos são esses que vão para a TV falar mal de trabalhador? Por favor, parem de ser tão venais! Votamos nesses "cidadãos" e agora temos que aguentá-los? Não. A sociedade deve cobrar por mudanças. Só queremos viver. Não aguentamos mais uma cidade sitiada, cartão-postal para gringo, miséria maquiada para inglês ver, mas que na verdade, é um lugar onde a população vive entregue às baratas. Senhor governador, não são só turistas que pegam o bonde, não. Acho que só o senhor não percebeu que pessoas moram em Santa Teresa. O senhor é o único que pegou o bonde andando e ainda quer sentar na janelinha. Como diria o rei Juan Carlos de Espanha: “¿Por qué no te callas?”.
O descaso é tanto, que mesmo quem é rico, que possui recursos financeiros que proporcionem uma boa qualidade de vida, sofre com isso. Afinal somos todos humanos: “Pau que dá em Chico também dá em Francisco”. Todo mundo sente, o que todo mundo sente, porque sentimento não foi feito para poste.
O bonde de Santa Teresa é um patrimônio da humanidade. O acidente que ocorreu em 27 de agosto de 2011, foi uma tragédia anunciada. O transporte que já andava mal das pernas, acabou virando um aleijão. Parece que no Brasil é preciso que acidentes aconteçam, pessoas morram, para se tomar alguma providência. Parece que aqui o governo só fecha a porta depois de roubado. Acidente? Isso é um crime e não um acidente. Acidentes acontecem por fatalidade. Agora, um bonde sem manutenção, serviço abaixo do aceitável, bagunça generalizada e um jogo de empurra empurra para ver quem vai segurar o rojão, é coisa de pré-história. Uma cidade que se preze, não paga esse mico. Fala-se em Olimpíadas e Copa do Mundo, mas não se fala em agregar esforços e levar dignidade para todo mundo. É patético ver o comercial do governo e da prefeitura, dizendo que fazem isso, fazem aquilo e aquilo outro, como se fossem uns santos. Seria bom que eles se lembrassem que elogio em boca própria é vitupério. Comercial bonitinho, pago com o dinheiro do povo, é uma piada. Não gosto de humor negro! Para nós, que vivemos no Rio de Janeiro, ver esses comerciais de paraíso fiscal, é o mesmo que sermos chamados de palhaços: No mal sentido da palavra, é claro. Sei que estamos falando do “acidente” do bonde, mas a indignação é tanta, que nos alongamos. Aqui se você puxa um problema, sai de braço dado com todos os outros. Cidade Maravilhosa? Faça-me um favor... Me poupe!
Para falar do bonde de Santa Teresa, recorramos à Wikipédia:
“A empresa foi fundada em 1872, com a concessão para a exploração de uma linha entre a atual Praça Quinze de Novembro e o Largo da Lapa, até à Avenida Gomes Freire, esquina com a Rua do Riachuelo. Deste ponto, cem réis, foi inaugurado em 1896, o ramal de Santa Teresa, que se estendia até ao Largo dos Guimarães e à Rua Almirante Alexandrino. Inicialmente, os bondes no Rio de Janeiro usavam uma bitola mais estreita, equivalente a 1.100 mm., que era a mesma dos Bondes de Santa Teresa. Os seus carros eram pintados na cor verde, mas passaram a ser pintados de amarelo laranja, após reclamações de moradores, que diziam que eles se confundiam em meio à vegetação do bairro.
A partir de 1968 permaneceram em operação, na cidade do Rio de Janeiro, apenas os bondes de Santa Teresa. Ao longo de sua existência, o seu sistema chegou a ter em operações, mais de 35 veículos, alguns com reboque.
Em 1975, de um total de 28 veículos, só se encontravam em efetivo funcionamento 18, com uma taxa de ocupação de 69%, uma das mais altas de sua história.
O sistema de bondes, à época de sua operação pela extinta Companhia de Transportes Coletivos(CTC), empresa do Estado do Rio de Janeiro, tinha uma frota operacional de apenas 10 veículos, e operava com intervalos entre partidas da estação Carioca de 15 minutos. O sistema transportava entre 25 e 30 mil passageiros por mês.
Através do Decreto nº 21.846 de 18 de julho de 2001, a responsabilidade do Sistema de Bondes de Santa Teresa, foi transferida da CTC para a Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (CENTRAL), empresa estatal fluminense responsável pelo transporte de passageiros.
O governo do Estado recuperou o ramal da Rua Paula Matos, depois o do Dois Irmãos e, mais recentemente, o do Silvestre, que estava paralisado desde 1966, em consequência de quedas de barreiras, provocadas por fortes chuvas naquele ano.
No ano de 2005, os bondes deixaram de circular por diversos meses, devido a uma greve dos seus técnicos e condutores.
Em 2011, um turista francês morreu ao cair dos Arcos da Lapa.[1][2] Ele seguia em pé no estribo quando se desequilibrou ao tentar bater uma foto e ficou preso na mureta, caindo então em um vão existente entre o carro e as grades da mureta [3]. Em 27 de agosto do mesmo ano, ocorre outro acidente, quando o bonde descarrilhou e se chocou fortemente com um poste, matando 5 pessoas (incluindo o condutor) e deixando praticamente o resto da lotação: 57 passageiros, gravemente feridos. O veículo ficou totalmente destruído. Sua aparência era de um carro sem bancos e capota. Nas fotos, percebe-se que a balaustrada que ligava o piso à capota, foi arrastada juntamente com os 57 passageiros, não permitindo que nenhum deles saísse ileso”.
História contada, fica na alma uma profunda tristeza. Vou parar por aqui. Preciso chorar. Obrigado por me ouvir.
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Oi Betto! Era de se esperar que você escrevesse esse texto. Artistas como você, que não ficam em cima do muro, sempre levantam suas vozes à favor do bom-senso. O texto é perfeito, Betto. Você dá voz aos excluídos. Além de grande escritor, você é um grande homem. Enquanto existirem nesse mundo, pensadores como você, teremos a certeza que um dia haverá fraternidade e amor entre os homens. Parabéns, rapaz. Parabéns!
ResponderExcluirO texto ficou ótimo, Betto. Não é a toa que você é tão talentoso, meu caro. Você tem aquilo que todo artista deveria ter: atitude e bom coração. Obrigado por pensar na dor de seus semelhantes. Você é 10, cara. Abs!
ResponderExcluirDe fato escrever tão bem assim, e sobre temas que envolvem o bem estar do próximo, é mesmo um exercício de cidadania. Admiro o seu trabalho, porque você é autêntico. Além de escrever tão bem e ter um dom para a poesia, o romance e a ficção, ainda consegue ser perfeito quando a crônica te leva a falar das coisas do dia a dia. Impecável o texto, Betto. Você é fantástico! Bjs!
ResponderExcluirImpossível não ficar triste com o horror que esse governo obriga o Rio de Janeiro a passar. Uma catástrofe como essa, dá nojo de viver numa cidade tão mal administrada. Economizou-se na manutenção dos bondes, matando e ferindo tanta gente. Parabéns por escrever algo a respeito. Além de muito bem redigido, o seu desabafo é de todos. Precisamos de escritores como você, meu caro. Artistas que não se omitem frente ao descaso, merecem todas as honras do mundo. Deus abençoe.
ResponderExcluirGenial, Betto. Estamos juntos nessa! Abs!
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