CORAÇÃO


Ela guardara o coração numa caixa de sapato. Decidira ficar só para sempre. Daquele dia em diante: nada de amor. Daquele dia em diante: a solidão seria sua alma gêmea. Amara um homem que carregava no peito um coração de papel. Um dia veio a tempestade, e o coração desse homem, o vento levou. Um dia veio a chuva, e o coração desse homem, a água molhou. Um dia veio a onda, e o coração desse homem, o mar apagou. Um dia veio o fogo, e o coração desse homem, o incêndio queimou. Foram dias nublados aqueles. Dias de silêncio e de dor. Por isso não sabia onde guardar a caixa do seu coração. Tentou guardá-la numa gaveta, mas não coube. Pensou em colocá-la na geladeira, mas ficou com medo de congelar. Quis deixá-la em cima da pia, mas poderia estragar. Juntaria formiga. Chamaria barata. Pensou em guardar o coração numa panela de pressão, mas onde cozinharia o feijão? O coração não cabia em lugar nenhum. Desesperada, atirou a caixa de sapato pela janela. O coração foi parar no meio da rua. Não pensou duas vezes: Subiu no parapeito e se jogou.


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Comentários

  1. Humberto Graça Mello5 de setembro de 2011 às 16:22

    Os seus textos são muito profundos, né? Adoro isso. Você tem um jeito de falar, uma forma de ver a vida, um estilo próprio, uma vontade imensa de dialogar. Você é um escritor completo, Betto. Quisera eu escrever um décimo do que você escreve. E o melhor: você é genial, cara. Parabéns, meu rei. Você é o que faltava na literatura brasileira. Genial! Abs!

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