ESCANDALIZE-SE PORCO!






Ele era mais um na sociedade dos porcos. Era um porco comum. Acordava de manhã para trabalhar, tomava café, fazia as suas necessidades fisiológicas, depois barba, banho, roupa, sapato e rua. Não pensava. Não raciocinava. Não sabia o que era carinho de verdade. Para ele, a vida era um imenso seguir adiante. Pé ante pé, lá ia ele, para a batalha. Ganhar dinheiro era o objetivo final. Todo mundo precisa pagar as contas. Todo mundo precisa trabalhar. Então, de sol a sol, o porco travava a sua luta diária. Só tinha um problema: não pensava, não raciocinava. Era biônico, robotizado. Apenas cumpria tarefas: depois voltava para casa, como se não tivesse existido. Horas, que transformaram-se em anos de inércia. O pai tinha virado torresmo. A mãe: salsichão. Os outros parentes: foram parar no matadouro. Um a um, todos acabaram na mesa. Era o preço do progresso: porco comendo porco para tentar sobreviver. O chiqueiro era grande. Quanto mais porcos morriam, mais porcos nasciam. Era um equilíbrio: desequilibrado. Um paradoxo: paradoxal. Afinal, quem morria não tinha direito a viver, porque nem sabia porquê tinha nascido. Era um bando de porcos alvoroçados, esperando impacientemente, a hora do jantar. Os mais felizardos: comiam lavagem. Os menos favorecidos, faziam da miséria, o pão nosso de cada dia. Pois quem não é capaz de pensar, deixa o porco mais “esperto”, tomar as “grandes decisões”, sobre o destino de todos: Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e se sobrar algo seu, depois eu como”. E de migalha em migalha, lá ia o porco: lambendo os beiços. Roto, desmembrado, flagrante, febril, indireto e escalafobético. Vivia uma vida indecente, sem recursos, sem vontade de crescer. Porque já falamos sobre isso, mas cabe aqui repetir: Ele não pensava. Não raciocinava.


Um belo dia, colocou a cabeça no travesseiro, dormiu e acordou inteligente. Entre um bocejo e outro, ainda sonado, perguntou-se: “Para que serve a sociedade?”. “A sociedade serve a própria sociedade ou serve ao porco?”. É uma pergunta filosófica, mas cabe nessa obra. “Por que o porco é tão desumano?”. É uma pergunta retórica, mas cabe nessa história. “A gente cresce quando melhora” pensou. “Quantidade nunca foi qualidade”. O porco mata por qualquer coisa. O porco atropela o seu semelhante para subir na vida. E mesmo assim, quando não consegue atingir o seu objetivo, dá ré e atropela de novo. O porco não é dado ao perdão. Golpe de misericórdia não é com ele. Mas se preciso for, concede o último desejo, desde que seja para o seu próprio benefício. Vive escandalizado, mas não se dá conta, que é ele que permite o escândalo. Afinal, o pior dos pecados é a omissão. Para quem vive dizendo que está tudo muito bom, tudo muito bem, na verdade não enxerga nada. Tem a moral mais baixa que o piso desse chão. “A felicidade não é deste mundo” disse o filósofo”. “Nem do outro, nem do outro, nem do outro”  concluiu o porco.  Porque é impossível ser cem por cento feliz vendo o outro sofrer. É como viver sem nascer. É como acreditar no que não se acredita. É como amar sem se amar. Ao perceber-se um ser pensante, o porco parou. Descobriu em si uma alma inteligente. Pensou ter ficado doente. Afinal, para quem nunca pensou, pensar dói. “Escandalize-se porco!” – ele disse. “Enxergue toda a miséria que há no mundo! Livre-se do racismo e do preconceito! Estenda a mão para quem precisa! Descortine-se! Desmascare-se! Escandalize-se porco!”.


Quando estava prestes a virar salsicha, ele ainda pensava nessas coisas. Mas era tarde demais. Já tinha virado embutido, e agora seria servido, para porco comer.


Escandalize-se porco!



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Comentários

  1. Muito inteligente, Betto. Esse texto é de uma riqueza extraordinária. Gosto desse seu lado filosófico. A gente sempre aprende muita coisa contigo. Muito obrigado por me fazer um bem enorme, toda vez que leio algo seu. O cunho social também me impressiona. Você é antenado. Mais contemporâneo impossível. Sucesso, cara. Você merece! Abs!

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