CIRCULADÔ DE FULÔ






Ele nunca pensou que fosse acordar com o corpo em chamas. E o simples fato disso acontecer, dava-lhe calafrios. Era um calor senegalês. Quarenta graus à sombra e nem uma brisa. Embora vivesse junto ao mar, janelas abertas, banho frio, nada resolvia. Depois de fritar horas na cama, levantou-se. Estava com sede. A água saía da bica como lavas de um vulcão. Água quente, noite quente, nem gelo resolvia. Pegou um copo, bebeu. Pegou outro, bebeu. Tomou tanta água que sentia-se pesado. Lembrou-se que tinha sobrado um pouco de Yakisoba do jantar: comeu. Quando ia jogando a embalagem fora, descobriu lá no fundo, um biscoito da sorte. Nele estava escrito em minúsculas letras: “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”. Parou frente ao papel, degustou letra por letra, olhou-se no espelho e deu um suspiro. Verdade seja dita: não conhecia nada de si mesmo. Apenas reagia aos solavancos do mundo. Horas sorrindo, outras chorando, com um pé numa tábua de madeira e outro numa prancha de isopor. E nesse calor insuportável, já que nenhum vento vinha, decidiu pensar em si mesmo, para aliviar a dor. Tinha os olhos pretos, de um preto tão preto, que confundia-se com a escuridão da noite. Nem o clarão do luar, disfarçava tamanho breu. “Conhece-te a ti mesmo” – ele disse. “O homem como o microcosmo do mundo, levando em si, os segredos de Deus” – pensou. Não sabia nada sobre si mesmo, que dirá sobre os segredos da alma humana. Era um homem mergulhado no mistério, na impossibilidade de respostas, na incapacidade de discutir sobre o avançado da hora. Sabia que era tarde para fazer certas coisas. Algumas perguntas não calam nunca, mas a idade chega, e o melhor é se fazer de surdo. Algumas coisas, parece, não se explicam jamais. Ficam paradas no tempo, esperando que outro, um dia, as possa disvendar.

O seu espírito tinha caminhado pouco. Foi até a esquina, deu um passo ou dois, depois voltou para casa. Dar uma volta no quarteirão: nem pensar. Por isso tinha uma ideia limitada do seu universo interior. Sabia-se capaz de mais, mas o cansaço encurtava-lhe as pernas. “Conhece-te a ti mesmo” – dizia o biscoito da sorte. Era uma sentença de morte? Não. Uma sentença de vida. Mas com esse calor, pensar não mais. Tirou a roupa, jogou-se no mar, foi bem lá pro fundo, e como um ser de outro mundo, não quis mais voltar.


  
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Comentários

  1. Genial, Betto. O seu blog é uma das melhores coisas desse mundo. Sucesso, camarada! Sucesso!

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