CARCARÁ






Ela colocara uma panela d’água no fogo, na esperança de no armário haver um pouco de comida. Tinha uns poucos grãos de arroz, meia mão de feijão, alguns galhos de louro, uma pitada de sal, um maço de coentro, dois ou três talos de fósforo, um prego enferrujado, um pedacinho de carne e mais nada. Estava com fome. Aquela mesma que rondara-lhe a alma a vida toda. Tinha as mãos calejadas pelo cabo da enxada, e a sola dos pés tão ásperas, que daria para ralar um coco. Era doce, embora saísse fumaça dos seus ossos. Era árida e cheia de espaços vazios. Seu silêncio era acompanhado de um arroto. Tinha os passos largos, andar estreito, um certo lamento na alma. Estava faminta, mas o que tinha para comer, não daria para saciar sua fome. Logo ela, que trabalhara a vida toda feito uma camela, sentia-se barata. Não com relação a preço. Mas com relação ao inseto: barata. Barata na alma, barata nos olhos, barata na miséria, barata por ter lutado por um dinheiro honesto. Felicidade para ela era amar. Ela não queria nada mais do que tinha. Sua única ambição era comida na mesa. Sua única ambição era ao filho poder alimentar.

O menino dormia na rede. Sentia fome. Deve ser horrível dormir com fome. Deve ser horrível ver um filho passar fome e não ter nada para dar de comer. Deve ser horrível viver assim. Mas eles viviam. Ou melhor: fingiam que sobreviviam. O adiantado da hora não era desculpa para não se preoculpar. A essa altura a fome roía-lhes os ossos. O menino acordou. Atordoada, jogou uma pedra dentro da panela, quando  a água começou a ferver. A água evaporou, a pedra não cozinhou, e a panela secou. O menino pediu-lhe comida. Dizia sentir dor de barriga, apontando para as costelas secas. “Onde é a dor?” – perguntou. “Aqui ó” – o garoto respondeu. Os dois ficaram em silêncio. Um silêncio tão grande, que dava para se ouvir do outro lado da rua. A pedra ainda estava crua. Seria difícil cozinhar. Desesperada, jogou na panela o que tinha na despensa. O armário ficara vazio, de um vazio tão vazio, que esvaziou-se de si mesmo. Era feio, nada bonito, medonho, carrancudo, horroroso, assustador. Aquele armário teria alma se não sentisse tanta fome. O menino abriu-lhe os braços, pedindo colo. Ela ordenou que dormisse. Inconformado, acenou com as mãos. Ela implorou que parasse. Amedrontado, pediu colo. Ela calou-lhe com um grito. Disse: “dorme”. Disse: “cale-se”. Quando a panela novamente estava prestes a secar, percebeu que era inútil a pedra tentar cozinhar. Apagou o fogo, pôs na panela os grãos de arroz, a meia mão de feijão, alguns galhos de louro, uma pitada de sal, um maço de coentro, dois ou três talos de fósforo, um prego enferrujado, um pedacinho de carne e mais nada. Comeriam crú assim mesmo. Afinal de contas, a fome é negra, e tem sangue de barata. Colocou tudo num prato e arrastou grão a grão, goela abaixo do garoto. A comida desceu-lhe rasgando a garganta. O menino não aguentou tanta dor, tanta agonia na vida, deu dois ou três suspiros, fechou os olhos e morreu.         

O momento mais difícil de se fechar os olhos, é aquele que antecede a hora de ver, o filho da gente morrer.

- A benção, minha mãe.

- Deus te abençoe, meu filho.




CARCARÁ ©  copyright by betto barquinn 2011
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Comentários

  1. Carlos Alberto Monteith2 de setembro de 2011 às 22:48

    Caramba, Betto. Você me fez chorar, cara. Esse seu texto é tão triste, que fiquei sem palavras. Só um escritor genial como você, poderia arrancar lágrimas de um marmanjo como eu. Sinal de que você é um ótimo escritor. Parabéns, gênio! Você é 10!

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