LA GORDA
Dona Naftalina era tão velha, que cheirava a mofo. Fazia uns bolinhos de chuva tão gordurosos, que só em olhar, o sujeito engordava. Era um doce de pessoa. Aliás, era doce e salgada. Adorava todo tipo de fritura, e dia desses, peguei-a fritando um pente. Curioso, quis saber o porquê de tamanho despautério, quando ela respondeu: “Estou testando uma receita nova: “Pente à parmegiana”. “Pega-se dez pentes, tempera-os a gosto, corta-se os pentes em bifes grossos, passa-se os pentes na farinha de trigo, depois em dois ovos batidos, em seguida na farinha de rosca, frita-se os bifes, e quando estiverem bem tostadinhos, colaca-se numa forma refratária, forrada com papel toalha, cobre-se os bifes com molho de tomate, depois uma camada de mussarela, leva-se ao forno por 10 minutos, polvilhando com queijo parmesão ralado para gratinar. Sugiro como acompanhamento: arroz branco e batatas-fritas bem douradas. Fica uma delícia!” – disse ela. Fiquei olhando com um certo espanto, mas dei de ombros, agradeci e saí. Ah, deixe-me falar um pouco sobre mim:
Nessa época, em que convivia diariamente com Dona Naftalina, eu morava em Londres, e fui para lá estudar inglês como bolsista, graças a um intercâmbio cultural. Ganhei a bolsa por ser o melhor aluno do ensino médio da minha escola. Minhas notas eram altíssimas, e por intermédio de um projeto do governo, saí de Buenos Aires e mudei-me para a Inglaterra. O governo argentino assinara um acordo com o governo inglês e com a União Européia, denominado: “Nações Unidas”, onde os melhores alunos de escolas públicas de ambos os países e de 27 Estados-membros, ganhavam bolsas de estudo, moradia, ajuda financeira e visto de estudante, para passarem de tempos em tempos, uma temporada no exterior, aperfeiçoando o idioma na cultura daquele país. Amigos meus foram para Bruxelas, outros para Lisboa, muitos mudaram-se para Dublim, Paris, Berlim, Roma, Edimburgo, e eu, mudei-me para Londres. Lugar lindo. Além da pujança do velho mundo, a cidade oferece dezenas de museus, centros culturais, teatros, centros acadêmicos, enfim, estudar em Londres é uma benção. Foi acordado entre a diretora da minha escola e minha mãe, que eu ficaria na casa de uma moçambiquense, naturalizada inglesa, que cuidaria de mim na minha jornada londriana. Foi assim que fui parar na casa de “Dona Naftalina”. Não era esse o seu nome verdadeiro, mas eu gostava de chamá-la assim, por causa do cheiro de mofo. Minha rotina em Londres era simples: Acordar cedo, por volta das cinco da manhã, tomar aquele café gorduroso, com todo tipo de fritura, ovos, bacon, linguiça, tripas, pães e banha, que Dona Naftalina preparava com todo amor e colesterol do mundo, escovar os dentes, cocôzinho, banho e correr para a escola. Lá estudava língua inglesa, história, filosofia, artes plásticas, matemática, dramaturgia, sociologia, literatura, psicologia, latim, computação, e praticava esportes. Ao meio-dia, almoço, depois um cochilo no dormitório, e as duas horas da tarde, voltávamos às aulas e ficávamos lá até às sete da noite. Quando voltava para casa, mais gordura: o jantar tinha tanto coisa boiando no óleo, que às vezes era difícil identificar o que estava comendo. A sobremesa era sempre a mesma coisa: bolinho de chuva mergulhado no óleo. Dona Naftalina nunca variava o cardápio. E dia após dia, eu tinha a sensação que se comesse aquela ‘gororoba’ por mais um mês, morreria de enfarto antes dos dezoito anos de idade. Logo eu, que mal passara dos treze anos, estava condenado a viver no paraíso do óleo de soja. Dona Naftalina vivia dizendo que eu era magro demais. Que se continuasse assim, não arranjaria namorada, "porque mulher gosta de homem gordinho, pois tem onde pegar". Eu tinha medo dela. Por causa disso, praticava todos os esportes possíveis, com o intuito de não engordar. A morte me seria menos dolorosa. Sempre disfarçava e ficava enrolando com a comida no prato, sob pretexto de estar saciado. E assim que Dona Naftalina saía da mesa, eu corria para a vasilha do cachorro, e ‘desovava’ toda aquela gordura lá. Sei que não era certo fazer isso, mas o cachorro era dela. Ele que comesse a comida da “mamãe”. Todas as noites, era sempre a mesma ladainha: eu subia para o quarto, dois minutos depois Dona Naftalina batia à porta, entrava, dava-me um beijinho de boa noite, e dizia: “Durma com os anjos, meu filho. Deus te conserve bonito e gordo”. E eu inconscientemente, respondia: Socorro!
Dois anos depois de morar em Londres, voltei para Buenos Aires, e cá estou até hoje. Quatro anos passaram-se, já estou com vinte anos, e nunca mais vi Dona Naftalina. Uma amiga que acabou de chegar de lá, disse-me que esteve com a “mamãe londrina”. Parece que está cada vez mais gorda, o cachorro enfartou, a casa impregnada com aquele cheiro de fritura, móveis encharcados de gordura saturada. Tudo naquela casa remete à banha e óleo de soja. A única coisa que não mudou, foi o cheiro de mofo da Dona Naftalina. Só fiquei triste com uma coisa: A minha amiga falou, que minutos antes de sair de lá, a velha explodiu. Voou pedaço para tudo quanto é canto. Uma pena: Dona Naftalina era ‘sem noção’, mas eu gostava dela. Que Deus a tenha em bom lugar no céu dos gordos.
LA GORDA™ © copyright by betto barquinn 2011
TODOS OS DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS BY BETTO BARQUINN
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Toda vez que leio um texto seu, sempre penso a mesma coisa: Impossível não gostar da Obra de Betto Barquinn. Você é muito talentoso, leke! Parabéns, meu rei! Parabéns!
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