ACONTECEU NO 7 DE SETEMBRO
Acordamos cedo, saímos com nossas bandeiras nas mãos, e fomos à rua saldar o 7 de setembro. Fazia calor. Era a primeira vez que nosso grupo de cadeirantes saía para um desfile dessa pujança. Foi uma alegria. Juntamo-nos a outros grupos de portadores de necessidades especiais, e lá fomos nós: comemorar. O desfile começou com a cavalaria das forças armadas: exército, marinha e aeronáutica. Muito lindo. Nas arquibancadas, muita gente animada saldava todos que por lá passaram. Beijos calorosos, abraços apertados, muita emoção uniu-nos numa grande festa. Afinal, era uma data importante. Quando no início do século XIX, deu-se em 7 de setembro de 1822, a emancipação política do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, passamos a ter o futuro do nosso país em nossas mãos. De lá para cá, passaram-se muitos anos. Ainda estamos engatinhando em conceitos básicos, como educação, saúde, respeito, direitos e deveres, solidariedade, ética, moral, dignidade, honestidade, consciência ecológica, política e igualdade. Mas em meio a nossos erros e acertos, devemos unicamente, passo a passo da nossa caminhada, a nós mesmos. Ao longo desses anos, o Brasil mudou muito. Observamos melhorias a olhos vistos. Mas precisamos melhorar mais. Fatores importantíssimos como respeito e amor ao próximo, ainda deixam muito a desejar. O brasileiro peca ao comportar-se como individualista. No dia que percebermos que somos todos iguais, que precisamos uns dos outros, aprenderemos a ver as dores e as alegrias do outro, como se fossem as nossas. Caminhamos muito, é verdade. Mas ainda temos muito que melhorar.
Sou cadeirante a quatro anos. Após um acidente de carro, vim parar nessa cadeira de rodas. No início foi um suplício: hospital, fisioterapia, reaprender a me socializar, a me amar, um horror. Mas dia após dia, fui compreendendo que poderia viver bem, mesmo sem o movimento das pernas. Percebi que era uma dádiva de Deus, passar pelo que passei, e ainda estar vivo para contar a minha história. Alguém lá em cima, tinha dado-me uma segunda chance. Não seria mal agradecido de recusar uma benção de Deus. Então dei a volta por cima, refiz a minha vida, terminei a faculdade, casei, tive filhos, e venho adaptando-me desde então. Porque se o corpo é o nosso maior tesouro material, viver é a preciosidade elevada à máxima potência.
Uma coisa que incomoda-me bastante, e certamente incomoda todo cadeirante, é a falta de estrutura das nossas metrópoles. Os arquitetos, engenheiros e urbanistas, não pensam na dificuldade que é, arrastar-se numa cadeira de rodas pelas ruas das cidades brasileiras. As calçadas são altas demais. Rampas são quase inexistentes nos prédios públicos e privados. E quando lá estão, viram um problema maior ainda. São íngrimes, de difícil acesso, impossibilitam a nossa locomoção e negam veementemente o nosso direito de ir e vir. Andar de transporte público, pior ainda. Os elevadores dos coletivos urbanos funcionam mal. Os funcionários das empresas de ônibus não são treinados como deveriam ser. Perde-se muito tempo, os passageiros reclamam, e o que deveria ser uma facilidade de transporte, vira um transtorno. O acesso ao metrô é desigual: algumas estações oferecem todo o suporte para os cadeirantes, enquanto em outras, o acesso é um estorvo. Os trens têm plataformas altíssimas, escadas rolantes ou comuns, ambas impossíveis para alguém numa cadeira de rodas locomover-se sozinho. A maioria das estações não têm rampas. Tudo funciona para dificultar a nossa inclusão social. Sem falar que aqueles de nós, que tem carro, encontram dificuldade até para estacionarem nos lugares, que à priori, são exclusivos para a nossa classe. No shopping, está lá a placa: “Vaga exclusiva para deficiente físico”. Mas esta mesma vaga, na maioria das vezes, está ocupada por pessoas que andam, que enxergam, que não possuem deficiências mentais, que poderiam esperar alguns minutos por uma vaga comum, ao invés de roubarem as nossas. Roubarem, sim. Porque quem pega aquilo que não lhe pertence é ladrão. Essa é a deficiência moral dos não deficientes: Achar que a dificuldade do outro é uma bobagem. O problema da vaga acontece em qualquer lugar: aeroportos, bares, restaurantes, casas de show, igrejas, teatros, bancos, museus, supermercados, estacionamentos, via pública, enfim, em todos os lugares. E a solução é simples: respeitarmos o direito do outro. Ou melhor: amarmos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Porque quem ama a Deus, ama-se e ama ao outro. Alguém com essa consciência moral, jamais faria com o seu semelhante, o que não gostaria de passar. Compreender que as dificuldades psicomotoras já são suficientemente grandes, para serem somadas a elas, falta de solidariedade, egoísmo e má vontade, também é um ato de cidadania. Quem é jovem hoje, se tiver sorte, será velho amanhã. Certamente passará pelas mesmas dificuldades de locomoção que passamos hoje. O Brasil não é um país adaptado para as minorias. Mas não devemos nos esquecer que uma nação é feita de pessoas. Um país que não é capaz de beneficiar a todos, não beneficia ninguém. Cedo ou tarde a vida manda a conta. E a multa para quem foi desumano, é altíssima. Para ser solidário, basta ajudar. Aí está o primeiro passo dado. Nós não podemos caminhar com os pés, mas caminhamos com as rodas, com a alma, com a mente e com o coração. Só pedimos um pouco de respeito. Se cada um fizer a sua parte, todos ganham e ninguém sai perdendo. Viver exige esforço: Coletivo.
Após o desfile, voltamos para casa. Já tínhamos cumprido a nossa obrigação cívica do dia. Só faltava viver o resto do ano, e o outro, e o outro, com a mesma dignidade de hoje. Porque a celebração, a festa, o desfile, os fogos de artifício, são muito bonitos. Mas a verdadeira cidadania, é aquela que manifesta-se nos 365 dias do ano. E se for ano bissexto, temos mais seis horas para amadurecermos a nossa consciência social. É um país assim que desejo para todos nós: Brasileiras e brasileiros, estrangeiras e estrangeiros. Essa sim, será a verdadeira Independência do Brasil.
ACONTECEU NO 7 DE SETEMBRO™ © by betto barquinn 2011
TODOS OS DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS BY BETTO BARQUINN
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É aquilo que eu sempre digo: Um artista antenado, vale mais que mil palavras. Você é fera em literatura, Betto. Escreve muuuuuuuuuuuito bem. Amo os seus textos, e este em particular, com tanta consciência social, me tocou profundamente. Parabéns por ser o que todo artista deveria ser: Formidável. Barquinn seu nome é talento! Parabéns!
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