NA PRIMEIRA MANHÃ






Ela deixou a vida escapar por entre os dedos. De repente: o amor bateu asas e voou. Era dona de uma vida solitária. A solidão era a única que não a deixara só. Tinha cabelinho nas ventas e uma ideia que não saía da cabeça: queria ser livre. Queria, mas não gostaria. Daria muito trabalho. Custaria caro. Teria que livrar-se de velhos paradigmas, antigos paradoxos, pensamentos arbitrários. Era uma mulher de um amor bem pequeno. A pequenez de gestos era o que mais a resumia. Tinha dor. Tinha desejo. Tinha calor. Tinha sonho. Tinha lampejo. Tinha lamento. Tinha sofrimento. Mas tudo nela era muito pouco, perto do que poderia ser. Fazia tudo pela metade. Abandonava-se ao léu. Perdia tempo olhando-se no espelho: tentando enxergar-se. Era tudo aquilo que jamais fora. Era o reflexo do nada estampado no vidro polido e metalizado. Uma mulher com a alma engessada, pulando de alegria, por ter caído e batido a cabeça. Ali não nascia nada. Se plantasse amor, colheria perda de tempo. Se plantasse esperança, colheria incerteza. Se plantasse a si mesma num vaso de barro, colheria dor e tristeza. A mulher por quem um dia apaixonei-me perdidamente, não existe mais. Hoje jaz à porta como folha morta.



NA PRIMEIRA MANHà©  copyright by betto barquinn 2011
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Comentários

  1. Magnífico, Betto. Além do seu blog ser lindo, você ainda escreve impecavelmente. Você é um ótimo escritor! Parabéns, meu rei! Parabéns!

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