E AGORA, JOSÉ?
Ela era o tipo de pessoa que só recebia negros em casa, se fosse para serví-la nos afazeres domésticos, ou no aparelho de som nos dias de churrasco na piscina, cantando pagode. Era uma escultura de olho azul, filha da alta aristocracia carioca, nascida de uma árvore genealógica mais antiga que o planeta Terra. Era o que chamam por aí de “rica de berço”. Não sabia o que era pobreza. Um dia vira alguma coisa semelhante num documentário da BBC. “Acho que era algum lugar da África” – pensou. “Mas onde é a África? A África fica do outro lado do mundo. O que eu tenho a ver com o sofrimento do povo africano? Nada. Seria pura perda de tempo ocupar a cabeça com isso. Não embranqueceria um fio da minha vasta cabeleira loura, por meia dúzia de “negrinhos mal ajanbrados”. Reclamam dos colonizadores, mas reclamam de quê? Eles falam francês e inglês fluentemente, muitos são até poliglotas? Vivem em favelas, é verdade. Mas pior seria se vivessem no Brasil. Aqui seriam favelados e analfabetos ao mesmo tempo. Não saberiam falar se quer, o próprio idioma. Quer saber? Essa gente reclama de barriga cheia. Ingratos! Os colonizadores sugaram-lhes às víceras e a alma, mas deixaram sua cultura, seu glamour, o perfume da high society, o aroma do velho mundo e um banho de civilização. Se não fossem os europeus, a essa altura a civilização africana já tinha sido riscada do mapa a muito tempo. Detesto gente mal agradecida. Isso mesmo... uns ingratos! Ainda mais esses que vieram para o Brasil nos navios negreiros. Ô gentinha esquisita! Reclamam até hoje de termos feito deles escravos. Mas se esquecem que graças ao senhor de engenho, da senzala à casa grande, a distância não foi tão longa assim. Ontem, tiveram o privilégio de nos servir debaixo do cabo da enxada, enjaulados feito bichos à chicotadas. Hoje, não. Esses mesmos “negrinhos” que serviram meus bisavós, transitam livremente nos meus aposentos, tocam a minha seda, lustram as minhas jóias, esfregam minha prataria, lavam minhas roupas de grife, engraxam meus sapatos italianos, aprendem a servir à mesa com requinte, tem aulas de etiqueta, os mais bem afeiçoados usam até uniforme: O que querem mais? Além disso, servem à pessoas que não conheceriam nem por um decreto: Artistas, pensadores, a nata intelectual desse país. Se soubessem ler; entenderiam. Mas nem isso sabem. Mal conseguem escrever o próprio nome. Assim fica fácil reclamar. Digo e repito: São uns imorais. Ingratos! Meus neurônios não foram feitos para pensar no sofrimento desses encapsulados. O máximo que eu posso fazer é lamentar. Ingratos!”.
Passava as tardes lustrando o próprio ego. Não gostava de preto. Estava enjoada até do tailler: pretinho básico. Era livre para pensar assim. Afinal, gosto não se descute. Mas acontece que o direito dela terminava quando começava o do outro. É assim com todo mundo. E se alguém é negro ou não, pouco importa. Desde que este e o outro, sejam respeitados pelo que são: Pouco importa.
No ano passado ela descobriu que estava com câncer. E lá foi aquela correria, para fazer uma bateria de exames. Por sorte, o tumor era benígno. Fizera a biópsia, depois retirara 60% do tumor, em seguida dez sessões de quimioterapia, algumas de radioterapia, uma infinidade de remédios, um calmante leve para aguentar o tranco, um ‘sossega leão’ vez por outra, um ‘tarja preta’ de vez em quando, e vida normal. Ficou curada, recebeu alta, e passou a ir ao médico mensalmente. Como o quadro era estável, passou a vê-lo a cada três meses, até que as coisas melhoraram, e ela só ia à consulta a cada seis meses. Fora um período longo de esperas. O tempo das esperas é uma dádiva de Deus. Mas para ela acostumada a mandar, esperar foi um suplício. Entretanto, acostumou-se. Não estava curada, mas estava bem. Tinha o risco do câncer voltar. Só depois de algum tempo saberia o desenrolar dessa história.
Uma vez, quase curada, voltou ao seu mundinho de mandos e desmandos. Mês passado, o telefone tocou, e era o médico do outro lado da linha, avisando que o câncer voltara. Falava em metástase. Ela ficou apavorada. Correu para o oratório que tem na sala, e rezou uma Ave Maria. A empregada vendo-a triste, jogada num canto do sofá, trouxe-lhe à imagem de Santa Ifigênia. “Ela é milagrosa” – disse a empregada. Aflita, a madame agarrou-se à santa, e de joelhos, implorou:
– Querida santinha, sei que és negra e deves ter ouvido todos os impropérios que eu proferi, por conta da minha aversão a essa gente de cor. Mas eu prometo, santinha querida, que se me curares, eu faço o sacrifício de tratar essa gente como se fossem iguais a mim: arianos ricos e bem nascidos. E para provar a minha fé: juro que nunca mais como carne. Muito obrigada, minha boa negra. Amém!”
O cancêr voltou extremamente agressivo, e não teve jeito: ela morreu. No enterro, quando carregavam o caixão para o jazigo perpétuo da família, uma das alsas soltou-se, os carregadores acabaram se desequilibrando e o ataúde caiu no chão. Um deles escorregou, o caixão saiu rolando, bateu numa árvore, o corpo dela pulou longe e saiu quicando por quase cem metros. Por um golpe de sorte, caiu numa vala, onde faziam um concerto na rede de esgoto. O corpo caiu no buraco e sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu.
Um dos coveiros, achou-o semana passada preso à fossa. Mas não disse nada a ninguém. “O que fazer com o corpo?”- pensou. Melhor deixá-lo ali mesmo. “Do esgoto vieste e ao esgoto retornarás” – concluiu.
Quando ia fechando a fossa, viu que um dos faxineiros do cemitério reclamava com o outro, que naquele ponto, o esgoto estava entupido a mais de uma semana. Incomodado com tamanha sujeira, o faxineiro perguntou:
E AGORA, JOSÉ?™ © copyright by Carlos Alberto Pereira dos Santos 2011
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Espetacular, Betto! O seu texto é um primor! Parabéns!!!
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