UM ÍNDIO






Esta noite achei um livro na oca de meu pai, e fiquei pensando o que aquele homem ali dormindo, pensa. Eu tenho a minha própria visão de mundo. Como todo mundo, espero o melhor da vida. Há aqueles pessimistas que nem sabem o que sentem. Mas eu não faço parte disso. Construo ao invés de destruir. Na maioria das vezes, enfio os pés pelas mãos. Mas as mãos são minhas. Os pés também me pertencem. Sei que ainda não descobri quem sou. Não me aproximo de mim além da distância de um braço. Sou um espetáculo circunscrito. Sou a arte do não saber. Vejo aportado em mim, um barco que às vezes vai à deriva. Tem dias que acordo tão triste, que mal consigo soletrar o meu nome. Sei que sei muito pouco da vida. Sei que às vezes me perco dentro de mim mesmo, sem forças para emergir. Tem dias que o cansaço me atropela. Tem dias que sinto tanta fome, que mesmo se me servissem o mundo, minha fome não se saciaria. Pouco me importa o que diz o homem, quando as palavras vem do lado de fora do coração. Já vi muitas bocas abertas, que falavam muito, e nada diziam. Vi gente pregando amor do meu lado, e lançando punhais em minhas costas. Às vezes gosto do discurso evangélico. Mas todo tempo busco a prática humanitária. Sou a minha própria utopia. Sou o alimento da minha alma. Às vezes passo fome de mim. Às vezes tenho sede do outro. Quando sinto frio, me cubro. Quando estou com calor, derreto. Minha moral cabe num pote de sementes. Minha história não tem nada a ver com a contemplação eterna. Quero o fogo. Quero a chuva. Quero a liberdade de ser fiel a mim mesmo. Quero ler Castro Alves até me empapuçar. Aprendi que se respeito vem em primeiro lugar, há de se ter respeito para respeitar. As palavras se sucedem. O antes e o depois, reinventam-me. Hoje acordei disposto a fazer poesia. Passei o tempo como um pé de vento. Quando vi estava aqui, a copiar a minha alma com carbono, e colocá-la no papel. Tem momentos que me recorto. Em outros, me paraliso. Gosto de conversar. Gosto de dialogar. Mas sei que sou melhor em silêncio. Gosto de escrever. Gosto de provocar. Mas sei que sou melhor leitor do que escritor. Como sei que há em algum lugar, alguém que esteja disposto a me compreender. Entretanto, isso não me aflige. Não busco leitores. Não busco admiradores. O que busco é esse espírito que me representa no mundo, esse corpo que todo mundo vê e poucos sentem, essa alma que sou eu, esse vento que me transporta, esse sol que me ilumina, e algo que parece-me ganhar um sentido próprio toda vez que se aproxima de mim: Sei que tem alguém que me protege. Sei que há algo que me circunda e que de vez em quando toca-me a flor da pele. Sei que há algo que me transborda, que vai ao mar e me retorna, como nascente. Todavia pouco importa-me o nome. Contudo, sei que ali está.

Na oca de papai achei um livro. Na oca de papai adormeci.






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