REDEMPTION SONG
Ela tinha a alegria tatuada na pele, como alguém que veste primeiro o espírito, depois a alma. Tinha uma vontade tão grande de viver, que às vezes chorava de felicidade. Hoje passou a manhã de joelhos, agradecendo a Deus por tudo que Ele lhe deu: inspiração, talento, competência, força de vontade, esperança, vida. Tinha sido tão ajudada, que mal cabia no mundo: Era uma menina inflada pela felicidade. Tinha amigos, amor, saúde, infinitude, alimento para a alma, sabedoria para o espírito, retidão moral e tanta generosidade, que quem chegava perto dela, colhia milagre. Sabia que não podia reclamar de nada. Poucas pessoas, ricas ou pobres, eram tão abençoadas assim. Para ela, a felicidade era um ponto de exclamação, do tamanho do mundo.
A adversidade ensinou-lhe a acreditar em si mesma. Lembrou-se do dia que fora expulsa de casa, filha de empregada doméstica, morta à patroa, a porta da rua virou a serventia da casa. Naquele instante decidira segurar às rédias da vida com a alma. Deu a volta por cima e tornou-se dona do próprio nariz. Ela e a mãe comeram o pão que o diabo amassou. Mas estavam vivas. E é isso que importa. Portanto, ela passou pelo que passou, mas jamais chorou pelo cadáver errado. Tinha o Animus. Possuía a coragem na alma. Não ter nada, inspirou-lhe a abraçar o mundo com a vida. Isso mesmo: Era feliz porque de matéria morta não tinha nada. Dentro dela havia um tesouro que só a ela pertencia: ela mesma. O pouco que tinha era tudo que sabia dar. Doou-se até a última lágrima. Doou-se até a derradeira gota. Manteve-se de pé pela força da fé. Isso ela aprendeu: Aprendeu que podia abençoar o mundo através das suas preces. Deus ouve tudo. Deus ouve sempre. Portanto, hoje acordou feliz, porque Deus lhe ouviu mais uma vez. Pediu que o Criador só lhe trouxesse o amor, no dia que conseguisse valorizar tudo que o amor pudesse dar. Pediu ao Senhor que lhe desse maturidade para sentir, paz para perdoar, respeito para ser justa, boa vontade para ser generosa, felicidade para doar alegria, sabedoria para entender que o que ela sente, o outro também sente, e humildade para pedir perdão. Deus deu tudo e ainda mandou um presente: O amor de sua vida.
A pior escravidão é aquela que o sujeito se deixa encadear por vontade própria. Por isso ela preferiu ser livre. Preferiu libertar. Preferiu viver e deixar o outro viver. Preferiu amar.
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