O QUE É, O QUE É?
Tive um sonho tão inominável esta noite, que passei o dia encostado em mim: Alma. No sonho, colocava a mão nos meus escombros, e tirava dali coisas que não sei o quê. Foi a noite em que o indecifrável bateu-me à porta. Tive contato com esse alguém que me habita e que não sei sequer o nome. Alguém que não se parece com nada que eu conheço. Acho que não existe palavra para isso. Portanto não darei nome aos bois. Só sei que tirei muita coisa. Tinha um pouco de tristeza, um pouco de cólera, um pouco de melancolia. O que se parecia com alegria: eu deixei. Tudo que era coisa boa ficara intocado. Guardei para mais tarde: como uma formiga que guarda o melhor de si para os tempos difíceis. E foi essa a sensação: de ser uma formiga. Pude até ver ali no cantinho de mim, um pouco de graveto, folha, pedrinha de riacho. Tinha até uns animaizinhas que guardei para os momentos de fome. Foi aí que percebi que minh’alma come. Foi aí que vi que minh’alma tem fome de mim.
Depois desta faxina, sinto-me mais leve. É como se eu tivesse colocado para fora todo o meu lixo. Por pura curiosidade, contei: foram dez baldes de pensamentos ruins, cinco pacotes de raiva, vinte e oito copos de pavor, oito ou nove sacos de infelicidade, três ou quatro de mágoa, muita vaidade em potes de conserva, um pouco de orgulho a muito varrido para debaixo do tapete, e alguns pacotes de vício: que eu nem sabia que tinha. Era muita coisa para uma pessoa só carregar. Era muito desespero guardado no armário errado. Tinha até coisas dos outros: descobri em mim até um trauma que papai carregava desde os cinco anos de idade. O pior dele foi parar lá no fundo de mim. Acho que foi de tanto ouvi-lo contar. Acho que foi por solidariedade. Sei lá... Só sei que guardei muita coisa. Tinha violência também. Havia algo tão animalesco em mim que até me arrepio. Eu que achava que caminhava para a natureza dos anjos, me vi mais selvagem do que nunca. Ainda não tenho o talento dos santos. Meus milagres vão como vieram: num piscar de olhos. Às vezes faço o bem sem olhar a quem. Às vezes me maltrato tanto que tenho dó de mim. Difícil ser gente e bicho ao mesmo tempo. Difícil me olhar de perto e não me reconhecer. Sou meio míope para essas coisas. Preciso de óculos até para me enxergar no espelho. Às vezes me vejo e não gosto. Às vezes me olho e saio correndo. Mas na maioria daz vezes me aceito como sou. Depois grito.
Sou um ser muito primitivo. Vejo-me subindo em árvore e batendo no peito para me comunicar. Já deixei alguns defeitos de lado. Hoje em dia não repito o que fui, não. Mas sou meio inacabado. Tem muita coisa que não tenho. Tem um estranho vivendo dentro de mim. Às vezes como capim. Em outros: filé com fritas. Às vezes me pego pastando. Em outras: caminhando.
Deve ser difícil para o espírito que sou admitir essas coisas. Deve ser difícil para ele aturar a limitação do meu corpo. Eu sou chato. Ranzinza. Pareço um velho. Tem dias que acordo doente. Tem dias que acordo saltando num pé só. Sou um tanto tacanho também. Minha inteligência não ultrapassa o raciocínio de uma tartaruga. Isso mesmo. E o pior: a tartaruga, por puro instinto, deve ser mais sábia que eu. Pois ela deve ter alguma coisa por dentro, uma voz interior ou uma intelectualidade suprema, que a dirige de perto. Eu, não. Já perdi o meu instinto. Já não ouço mais ninguém falando dentro de mim. Deve ser isso que chamam de vazio da alma. Esse deve ser o meu ôco interior. A única coisa que me nivela à tartaruga deve ser o casco. O meu também é duro e difícil de penetrar. O resto, aquilo que me tornaria mais humano, arrasta-se no chão feito lagartixa. Eu sou a alma do mundo dentro de um copo d’água. Às vezes me bebo. Em outras: fico quieto no meu canto até a sede passar.
Eu quero ter esse sonho de novo. Quero voltar a colocar a sujeira para fora. Se eu sonhar comigo todo dia, e fazer essa faxina toda noite, posso enfim sentir orgulho de mim. Isso é antes de tudo uma declaração de amor. Só quem se ama de verdade é capaz de reconhecer que não é tão bom assim. E acima de tudo: que não é tão ruim. Pelo pouco que deixei dentro de mim, pelo muito que me tirei, uma coisa eu sei: aconteça o que acontecer, sofra o quanto sofrer, mesmo que chore rios de lágrimas, haverá dentro de mim um pouco de alegria, dizendo-me para não desistir. Desistir: nunca. Desistir: jamais. Por isso comprei flores para decorar o meu jardim. Quero margaridas na sala e girassóis na mesa de jantar. Vou até providenciar algumas rosas vermelhas para encher de vida o meu portão. Agora que sei que sou a minha própria moradia, que habita dentro de mim a minha alegria, quero paz e sossego.
Sou uma alma sentada na varanda de casa, esperando a hora do sol se pôr.
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