TENIA TANTO QUE DARTE
Este mês aterrissei em Paris. E ao invés de revisitar o óbvio, como ir à Torre Eiffel, ao Louvre, à Galeries Lafayette, à praça Charles de Gaulle, ao Arco do Triunfo, ao luxo da Champs-Élysées, ou ao Palais Garnier, acabei escolhendo um orfanato em Montmartre. Ávido por respirar o mesmo ar que invadiu os pulmões de Toulouse-Lautrec, Cézanne, Van Gogh, Degas, Renoir e Monet, parti em peregrinação para algo que batizei de “Mergulho na profundeza da alma”. Movido por um amor imorredouro, apoiei-me no Berço da Civilização, com o objetivo de dar o primeiro passo rumo a mim mesmo. Percebi que em um mundo cada vez mais consumista, acabamos deixando a nossa alma de lado. Na correria do dia a dia, agarramos o que é matéria e descartamos o que é espírito. Neste jogo de pegar e largar, escorremos feito água para dentro do ralo, sem ao menos percebermos quanto vale a nossa essência. Ao longo da vida, tocamos pouco em nós mesmos. Não sabemos nada de nós e nada do outro. Relacionamo-nos com o mundo, mas o mundo não se relaciona conosco. Gastamos o nosso precioso tempo, tentando ganhar, sem nos darmos conta que vivendo assim, acabamos perdendo. Poucos são aqueles que investem nos relacionamentos humanos. Poucos são os que se deixam tocar. Preferimos valorizar as aparências, ao invés de nos aprofundarmos no que há de melhor em nós mesmos. Porque poucos são aqueles que se permitem doar.
Antes de chegar à Paris, eu era um homem perdido na Plaza Cataluña de Barcelona. Era um homem perdido entre a Espanha e seus labirintos. Era um homem sem instintos. Era o desalimentar. Agora vejo-me dentro deste orfanato, abastecendo-me de gente. Vejo crianças correndo para o ‘seigneur du monde’. Eu abro os braços e as abraço. Eu me alimento delas como elas se alimentam de mim. Enquanto para elas eu sou o ‘monsieur’, para mim elas são ‘la vie’. Foi aqui que escondi minh’alma. Foi aqui que eu a havia deixado para se fortalecer. Agora Montmartre é minha segunda casa. Aqui está a minha razão de viver.
TENIA TANTO QUE DARTE ™ © copyright by betto barquinn 2011
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