ANÔNIMO BRASILEIRO






Os figurantes invadiram os estúdios da maior emissora de TV daquele país. A República dos Anônimos ficava entre Coisa Alguma e Lugar Nenhum. Entraram empunhando suas tochas. Era dia de caça às bruxas. Estavam cansados de personagens secundários: queriam ser protagonistas de qualquer coisa. Viviam cercados pela fama, mas nunca conheceram o sucesso. O líder do grupo, um nano-ator de alguns centímetros, segurava um megafone e dizia: “Figurantes unidos, jamais serão vencidos!”. Todos repetiam aos gritos tudo que o nanico falava. A palavra de ordem era: Arruaça!

Eles participavam de todos os programas de auditório. Eram incentivados a gritar, aplaudir, bater com os pés no chão. O apresentador do programa dominical fora amarrado a um poste. A apresentadora do programa infantil ardia em chamas, enquanto o cenógrafo pedia socorro. O responsável pelos efeitos especiais tentava dar veracidade à cena: riscando um fósforo. Minutos antes do fogo lamber o cenário, a apresentadora banhada em gasolina, disse aos soluços: “Clemência!”. Nada adiantou. Alguém tinha que ser sacrificado em nome da honra dos figurantes. Fora ela, coitada, que sem saber: entrou para a história da TV, mais preta que um pedaço de carvão. Foi carbonizada em rede nacional. Mas era só um truque: maquiagem, efeitos de computador, e mais nada. Era tudo ao vivo: sem cortes.

Depois de tomarem o poder, invadiram o estúdio das telenovelas. A mais velha do grupo disse que queria ser protagonista do pequeno romance do horário nobre. Virou a mocinha da história. Uma heroína quatrocentona que passava dos duzentos quilos. O galã fora eleito pelo público: um papagaio esquisitão, que falava “EU TE AMO” em qualquer idioma. Língua viva ou língua morta. A novela foi um sucesso. Pela primeira vez o amor de uma idosa obesa e de uma ave falante fora retratado na TV. Eram cartas e mais cartas que chegavam diariamente, pedindo a reprise da cena, em que a gorda sentava no colo do louro e o esmagava com as nádegas. Era tudo meio bizarro, eu sei. Mas era tudo do jeitinho que o povo gosta. Agora os atores famosas é que eram os figurantes. As camareiras davam ordens às Estrelas da TV. A equipe de produção passou a mandar no diretor. As cabeleireiras, manicures, costureiras, copeiras, faxineiras, seguranças, enfim, toda a classe operária: fazia o que queria.

A emissora ficou anos assim: abarrotada de gente. Trinta anos para ser exato. Teve gente que nasceu ali. Teve gente que era cria da TV. No dia que os famosos foram banidos para o exílio, a República dos Anônimos fundou um novo país. Teve figurante invadindo o gabinete do presidente. Teve figurante invadindo o senado. Teve figurante se elegendo deputado. Foi um verdadeiro furdunço. Foi um dia de cão. Mas no final deu tudo certo. Agora o mundo é dos figurantes, que não são mais figurantes, não. Os figurantes agora conhecem o sucesso. A fama ficou para os outros: Os famosos.    




ANÔNIMO BRASILEIRO ™ © copyright by betto barquinn 2011
TODOS OS DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS BY BETTO BARQUINN

Comentários

  1. Maria de Lourdes Mourão10 de dezembro de 2011 às 15:23

    Você é o máximo, Betto. Tem um talento nato para a escrita. Consegue agarrar o leitor pela mente e pelo coração. Isso é privilégio de poucos! Você é um escritor genuíno. Parabéns, Betto. Pelo talento, pela delicadeza com que constrói os seus personagens, pela humanidade que coloca no papel ou na tela do computador. Qualquer um de nós poderia ser qualquer um de seus personagens. Eles verdadeiramente existem! Beijos!

    ResponderExcluir
  2. É sempre um prazer vir ao seu blog, Betto. Aqui tudo é muito bom. Você tem um talento esplêndido para escrever e isso fica nítido em cada texto seu. Parabéns, meu caro. Você merece o melhor. Abs!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PRESSENTIMENTO

ETERNAMENTE ANILZA!

YES, NÓS TEMOS BANANAS!