SAMBA DE VIOLA






Estou parado frente à caverna de Platão, sem saber se as sombras que vejo são o que me representa por dentro, ou se sou eu que ali estou, preso no Mito da Caverna, a procura do lado de fora de mim. O raciocínio parece intelectualizado demais, eu sei. Entretanto é só parar para pensar, que logo vem um outro olhar à tecer a trama da minha teia. Estamos acostumados a assimilar ideias fáceis. Tudo hoje em dia parece vir embalado para viagem. Um click no Google e voilà: aí está a resposta! Neste fast-food que tornou-se a sociedade globalizada, o fato de parecer que o mundo nos é entregue numa bandeja de prata, não nos beneficia em nada. Acabamos por nos perder no labirinto das coisas. A vida não é só acordar, trabalhar, estudar, ganhar dinheiro, trocar o imutável pelo descartável, experimentar uma série de sensações e relacionamentos pasteurizados, e voltar a dormir. Não aprofundar-se nos sentimentos é ruim, porque acabamos não observando o que há de nós no outro e vice-versa. Perdemos a oportunidade da troca. Desperdiçamos o tempo cobrando, ao invés de doar. Queremos atenção, mas não nos abaixamos para pegar o afeto na lata de lixo. Varremos a sujeira para debaixo do tapete. Convivemos com as pessoas, mas não tocamos essas almas. Somos diplomáticos com o outro, e o pior, com nós mesmos. Na maioria daz vezes, diplomacia não tem nada a ver com caridade. É apenas uma convenção social. Fazemos, mas não sentimos. Há aqueles que são bélicos por natureza. Explodem e implodem com a maior facilidade. Estes são os perversos: os doentes da alma. A maioria de nós, os chamados “indivíduos civilizados”, vamos nos servindo do grão de atenção que cai do prato de um, do desprezo e da inveja da que sai da panela de outro, e seguimos vivendo como se nada tivesse acontecido. Não nos damos conta, que quando aprisionamos o espírito no passado, um dia teremos que voltar para buscá-lo.

O que eu quero dizer é tão íntimo quanto a profundidade do espírito. Incomoda-me viver numa sociedade onde andamos todos perdidos, sem revelarmos quem somos, sem acariciarmos a alma do mundo, sabendo muito pouco ou quase nada do outro, e sobretudo de nós mesmos, passando a vida sem entendermos o siginifcado da nossa própria existência. Por isso eu gosto de doar o amor que há em mim, e receber do outro a compaixão que me liberta. Sou o tipo de pessoa que pede licença para viver. Sou um grão de areia no mar do universo. Sou pequeno demais para ser visto. Sou um microscópico ser. Mas acredito que mesmo pequeno, Deus me enxerga neste mar de gente. Por isso digo que meu semelhante é meu reino. O próximo é meu irmão de alma. Toda aquele que me cerca é minha fortaleza. A família universal é meu patrimônio infinito. Portanto, não vou passar a vida pisando nos outros. Não farei aquilo que não gostaria que fizessem comigo. Por isso estou aqui, frente à caverna de Platão, vendo à luz do dia. Não há mais espaço para sombras em minha vida. De hoje em diante, vou viver a vida, como ela é.     



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