DIREITO DE SAMBAR
Ontem à noite fugi de casa, com o intuito de parar em algum lugar, que ninguém me conhecesse. Fui parar em um bar no subúrbio, e a primeira coisa que me pediram, foi um autógrafo. Não adianta fugir. Sou reconhecido em qualquer esquina de bar. Eu, um ser em fuga, querendo que me abandonassem num canto, tirei tantas fotos e sorri para tanta gente, que ao voltar para casa, estava com uma ruga enorme no canto da boca. Ser uma pessoa conhecida dá um trabalho enorme. O ser popular não tem um minuto de descanso. A gente tem que saber que roupa usar, não pode passar uma imagem que não nos favoreça, até para ir à padaria comprar um pão, a imagem deve ser impecável. Mas confesso que não sigo regras de etiqueta. Apenas faço o que diz o meu coração. Se alguém quiser me conhecer, saber de fato quem eu sou, é simples: Basta me amar.
No início da carreira de “famoso”, lá por aquelas épocas que a pobreza era uma constante em minha vida, andava de ônibus. Era constrangedor. Todo mundo perguntava o que alguém como eu, fazia ali, no ônibus. Aí, eu pensava: “Alguém como eu, o quê?”. Sou uma pessoa comum como todas as outras. Todo mundo me conhece, mas isso não quer dizer que eu seja diferente. A ideia que se tem de quem aparece na televisão é errada. Nem todo mundo ali tem dinheiro. Nem todo mundo tem carrão. Eu custei muito para ter dinheiro, sabe? Passei por poucas e boas nessa vida. Agora não ando mais de ônibus, não. Agora tenho carrão. Mas de vez em quando ando a pé. Gosto de caminhar. Gosto de apertar a mão das pessoas. Gosto de ver gente de perto. Eu dei uma sorte danada, sabe? O sucesso chegou antes da fama. Digo isso porque antes de ser uma “celebridade”, eu já fazia o que gostava. Não precisei do reconhecimento de ninguém para saber o que queria da vida. A fama veio à reboque do sucesso. Faz parte daquilo que mamãe sempre fala: “O inevitável acontece”. Eu trabalhei para isso, tive muita força de vontade, bati nas portas certas, que me foram abertas com generosidade. Não seria nada sem a ajuda de um monte de pessoas. Gosto da fama. Entretanto gosto de ficar quieto no meu canto. Estou em fuga, sim. Mas não é uma fuga das massas. Nada a ver com aversão às multidões. Apenas decidi que quero ficar um pouco comigo. Preciso me conhecer melhor. Preciso ficar só com os meus botões.
A fuga de ontem não deu certo. Mas não tem problema, não. Vou fugir de novo. Mas dessa vez, a fuga será mais proveitosa: vou fugir para dentro de mim.
DIREITO DE SAMBAR ™ © copyright by betto barquinn 2011
A fuga de ontem não deu certo. Mas não tem problema, não. Vou fugir de novo. Mas dessa vez, a fuga será mais proveitosa: vou fugir para dentro de mim.
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