STAND BY ME
Ele tinha um pouco de todas as coisas e ao mesmo tempo não tinha nada. Era engolido por si mesmo toda vez que bocejava. O dinheiro deixa as pessoas tristes quando elas percebem que só têm isso. Para quem não tem, parece que o paraíso virá no dia que o numerário chegar. Mas não é bem assim. Se a pessoa não criar um objetivo na vida, o dinheiro torna-se-à um entrave. E ele sabia disso. A sociedade de consumo faz com que as pessoas consumam umas às outras. Inclusive a si mesmas. O tempo é curto. Temos que viver todos ao mesmo tempo. É como se já nascêssemos correndo atrás do prejuízo. Mas a vida não é isso. A vida é muito mais do que alguns trocados no banco. Mesmo que esses trocados cheguem aos milhões, ainda é muito pouco trocar afeto por dinheiro.
Ele era o tipo de pessoa que batia, depois pedia perdão. O capitalismo ensina-nos a devorarmos tudo. Mas nos esquecemos que a lei da selva, diz que se hoje é dia da caça, amanhã será do caçador. Então quem consome é consumido. Quem come é comido. Quem devora é devorado. Se não pelo outro, certamente por si mesmo. Na maioria das vezes somos o nosso pior inimigo. Tornamo-nos como urubús atrás de carniça. E essa carnificina que tornou-se a sociedade ocidental, faz mal até para quem tira algum lucro dessa barbárie toda. As pessoas ficaram fracas. A fragilidade das relações virou a ordem mundial. Ser mal caráter virou sinônimo de ser bem sucedido. Somado a isso vem o individualismo, o pouco caso, o deboche, a falta de compostura, o desleixo, o abandono dos sentimentos, o respeito tratado com desrespeito, a cordialidade trocada pela violência, a vaidade de alguns em detrimento do bem-estar de todos, o egoísmo como virtude, o orgulho sendo visto como heterônimo de amor próprio. Mas desde quando quem odeia, pode amar ao outro ou a si mesmo? Passar por cima do próximo virou o supra-sumo da ambição. Atropelar, matar, persuadir, mentir, trair, enganar: está tudo liberado! Quem não se enquadra nesse molde de sociedade, aquele que é um estranho no ninho, o que não segue a fórmula secreta do se dar bem a qualquer custo, que não uso do subterfúgio do “salve-se quem puder”, acaba virando o patinho feio da vez, o bobo da corte, o ingênuo na berlinda, o simplório de plantão, o pascácio no meio dos espertalhões. E a culpa é nossa mesmo. Deixamo-nos levar pela falsa ideia de que felicidade tem a ver com ter ou não ter dinheiro. Nos deixamos assolar pela mídia que diz que tudo pode ser comprado: gente, amor, talento, carinho, abraço, beijo, sexo, paz de espírito, Deus, vida eterna, sabedoria, família, felicidade, juventude, prazer, delicadeza. E ele também sabia disso. Sabia tanto, que ficara perplexo ao perceber que vivia preso numa caverna existencial, colecionando sombras.
Hoje ele acordou disposto a mudar. Saiu da cama, lavou o rosto com água de flor de laranjeira, escovou os dentes, abraçou o cachorro, deu um beijo no gato, sorriu para o espelho, e decidiu que nunca mais ficaria sozinho.
Muita gente está neste momento rodeada de pessoas, mas não enxerga um palmo à frente do nariz. A solidão é bem pior quando estamos acompanhados. Por isso, como cegos da alma, seguimos pelo mundo, pela vida, fazendo da bengala, o único ponto de apoio. O ser humano precisa amar para ser amado. Dinheiro é muito bom, sim. Mas não paga o preço da alma de alguém. As pessoas morrem. O tempo passa para todo mundo. Um dia o materialista acorda e dá de cara consigo mesmo à cinco minutos do fim. Nada mais a fazer. Nada mais a consertar. Muito triste isso. Muito triste mesmo. Mas com ele isso não irá acontecer. Será feliz, sim senhor. Porque se o verdadeiro cego é aquele que não conhece nada de si mesmo, o verdadeiro sábio é aquele que sabe que o melhor momento para ser feliz é aqui e agora. E por falar nisso, me dá licença, por favor: Tenho que sair. A felicidade está lá fora a me esperar.
Até a hora do sim, ainda dá tempo de dizer não. Não ao preconceito! Não ao racismo! Não à violência! Não à homofobia! Não à humilhação! Não ao materialismo! Não à tortura! Não à ditadura! Não à maldade! Não à cegueira da alma! Não!
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