TEARS DRY ON THEIR OWN



Ela tinha tanta vontade de ser feliz, que tudo que fazia dava certo. Se assava um bolo, saía delicioso, crocante, fofinho. Se lavava roupa, o mundo ficava com aquele cheirinho perfumado de amaciante, que só a felicidade tem. Ela era assim: linda e delicada como as coisas boas da vida. Chocolate quente ao seu lado, tinha gosto de festa. Sessão da tarde tinha sabor de desenho animado, pipoca doce, milk shake de morango, cookie de caramelo, café com leite quentinho, sanduíche de peito de perú com bastante queijo Cheddar, pizza de frango com catupiri, pão de queijo torradinho, e pão de mel cheio de adjetivos. A vida perto dela era assim: tinha gosto de poesia.

Ela sabia que o ser humano só tem de seu, aquilo que consegue levar para o céu. Sabia que tudo que ganhara ao nascer, tudo que juntara durante a vida; perderia ao morrer. A vida material seria como colocar um pouco de terra dentro de um pote de vidro, e ficar segurando a embalagem por muito tempo. Enquanto estamos segurando-a, ela é nossa. Se a soltamos por algum motivo, deixa de ser. Assim é a vida na Terra: Usufruímos da matéria, mas ela não é nossa. Nada aqui nos pertence. Quando daqui partimos, quando para o céu voltamos, levamos o melhor e o pior de nós mesmos. Nada mais. O corpo espiritual, os bens morais, os talentos profundos, a boa vontade, a alegria, o amor, a caridade, e a esperança de viver, partem para a grande viagem junto com o espírito. Como também parte conosco, o mau humor, os vícios, os defeitos, as culpas, o preconceito, a aversão ao perdão, a inveja, o desejo de vingança, o materialismo, e todo sentimento ruim, que mendigamos durante a vida toda. Aí está o melhor e o pior de nós mesmos. Aquele que chega rico no céu é o mesmo que viveu como pobre de espírito na Terra. Os títulos de nobreza, o “sangue azul”, as propriedades nababescas, os palácios suntuosos, as jóias milionárias, o dinheiro no banco, as ações na Bolsa de Valores, os carros de luxo, o efêmero da fama, o sucesso mortal, o Smartphone da moda, o computador de última geração, o Smart TV 3D, enfim, todo o tesouro material fica. Levamos a nossa sabedoria, os nossos sonhos, a nossa verdade, a nossa singularidade e a nossa pluralidade. Quem vive pagando o mal com o bem irá para um lugar de paz. Quem pautou a sua vida, através do orgulho e da vaidade, já recebeu a recompensa na Terra. Terá um futuro pródigo de choro e ranger de dentes. Pois o mal jamais prevalecerá na presença do bem. “A gente tem que ser amado para não ser esquecido” – pensou. “A gente tem que ser amado pelo que é, não pelo que o dinheiro pode comprar. Porque isso não é amor” – pensou. “Só tenho medo de uma coisa: de ser abduzida para um universo paralelo, cheio de gente mal amada, e não voltar nunca mais para dentro de mim mesma”. Bobagem. Ela não corria êsse risco. Pessoas boas como ela, sempre vão para um bom lugar. “Todo mundo é filho de Deus. O mal é apenas a ausência temporária do bem. Um dia todos enxergarão a Luz” – pensou.  A morte seria para o bom espírito como acordar do pesadelo. O mesmo que é para o sequestrado: libertar-se do cativeiro. Após êsse pensamento cheio de esperança, lembrou-se que no dia que nasceu, um Anjo soprou-lhe algo ao ouvido, que jamais esquecera: “Amareis ao Senhor vosso Deus de todo o vosso coração, de toda a vossa alma, e de todo o vosso espírito. Êste é o maior e o primeiro mandamento. E eis o segundo, que lhe é semelhante: Amareis ao vosso próximo como a vós mesmos. Toda a lei e os profetas estão contidos nêsses dois mandamentos”.

“Lágrimas secam sozinhas” – pensou. “Mas ninguém precisa chorar a vida toda”.  

Preciso escrever mais alguma coisa? Acho que não.



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Comentários

  1. Mariana da Silva Braga2 de novembro de 2011 às 08:30

    Você é capaz de arrancar um sorriso até dos que andam de mal com o mundo. Adorei o texto, lindão! Aliás, impossível não gostar de tudo que você escreve. Vida longa, meu rei! Bjs!

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