O PODER DAS PALAVRAS



Ela escrevia cartas para ninguém ler. Passava horas enchendo folhas brancas, de velhos cadernos amarelados. Tinha tanta vontade  de escrever, que às vezes respondia as próprias cartas, como se fossem de outra. Era faminta por literatura. Escrevia sobre a camada de ozônio, sobre o desmatamento na Amazônia, sobre a violência contra a mulher, sobre sonhos e pesadelos. Quando viajava para a França (lugar que todo espírito deveria ao menos conhecer), dissertava sobre Paris que ninguém conhece. Ao invés de falar da Torre Eiffel ou do Arco do Triunfo, quizá do Museu do Louvre ou da Notre-Dame, escrevia sobre como o sofrimento é capaz de deixar as pessoas amargas, mudando o contorno de seus rostos. Certo dia, ela disse: “No metrô de Paris, vejo os franceses como eles são: barrocos e encimados, como anjos de vidro”. O indizível rondava-lhe a mente, e vez por outra, caía uma palavra no papel. Escrevia romance para o cachorro. Fazia crônicas para um prego enferrujado. Às vezes pichava as paredes de seu loft, pelo simples prazer de ter o que escrever. Outras tantas, compunha samba em papel de pão. Havia dias que enchia-se de alegria. Em outros, esculpia com lágrimas o chão. Tinha uma caixa de contos guardada num cofre, disfarçado no miolo de um livro. Dizia que aquele ali era o seu tesouro. Nada para ela tinha mais valor nessa vida que os livros. Tanto que os tratava como filhos. Tanto que não desgrudava deles um segundo sequer. Era recheada de pensamentos soltos, que iam e viam, repletos de sentimentos. Quando acordava triste, ficava horas bordando versos. Se amanhecia doente, cerzia poesia. Tudo para ela tinha um significado. “A vida é uma explosão de motivos nús”  dizia. Só os vocábulos poderiam vesti-los. Só os vocábulos dariam algum sentido ao que não tem explicação.

Semana passada mudou-se para dentro de um livro. Ao invés de carta de despedida, presenteou-nos com um bilhete. Dizia que a deixássemos em paz: “A partir daquele dia, era ali que iria ficar”. Pediu que os amigos regassem as folhas do livro com chá de camomila. Pediu para a mãe plantá-lo num vaso de flor. Recomendou-nos que vivêssemos com cordialidade até o último dia do resto de nossas vidas. E que amássemos uns aos outros como se estivéssemos a um passo do olho do furacão. Deixou-nos muitas palavras esquisitas: ‘au revoir’, ‘boteille de l’eau’, ‘huile d’olive’, ‘avocat’, ‘goudron’, ‘bonne nuit’, ‘jaune’, ‘brochette’, ‘serviette’, ‘fraise’, ‘fromage’, libertéégalitéfraternité. Deixou-nos uma enciclopédia de bons sentimentos e uma receita de empadas. Como despedida, pediu-nos que quando sentíssemos sua falta, fôssemos a uma biblioteca qualquer. “Pode ser a maior livraria do mundo ou um livro velho jogado num canto. Se vocês me procurarem, me encontrarão. Se tiveram dúvida, procurem-me numa estante: Estarei ao lado da palavra ‘diamante’.   E se mesmo assim, não me encontrarem, procurem-me no dicionário: Estarei ao lado da palavra ‘calendário  – profetizou. Suas últimas palavras foram simples, como tudo que escreveu: “Se é verdade que beleza e juventude andam lado a lado com o  sucesso, nada substitui o amor”. Nem o dinheiro, nem a paixão, nem a fama, nem a corda do violão”.

Dito isto, desapareceu, sem dizer adeus.  


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