WE HAD IT ALL




O semeador de almas caminhava tranquilamente pelo passeio público, cheio de amor para dar. Tinha sido viciado em drogas. E agora, livre do vício, experimentava o que era viver longe do mal de si mesmo. Perdera muito tempo na vida,  largado num canto. Passara anos sem gosto para viver. Acordava, bebia, fumava, drogava-se. Depois dormia e voltava à lama de novo. Era um círculo vicioso que custou-lhe vida, saúde, dinheiro e amor. A mulher: suicidou-se. Os filhos: foram para o orfanato. O que ninguém percebe é que uma família desestruturada: acaba. Os filhos não tem culpa da má sorte dos pais. Ninguém que não possa cuidar de si mesmo, deveria ter filhos. A sanidade é o primeiro passo para educar alguém. Caso contrário, cria-se a saia justa de colocar mais um órfão no mundo. Ninguém é obrigado a aprender a amar a si mesmo. Mas deveria perceber que amar aos outros é primordial. Tudo bem que quem não se ama, não ama ninguém. Mas desde o momento que colaca-se um filho no mundo, – o discurso deve ser outro. Filhos precisam de açúcar e de afeto. Precisam de amor, de esperança, de um lar seguro, de um teto sobre suas cabeças. Mas o semeador de almas não foi esse tipo de pai: presente. Mas: ausente. Abandonou a esposa e os filhos por uma vida de encolhimentos. Juntou-se a uma mulher mais nova, que arrancou-lhe até o esmalte dos dentes. Sozinha, a ex-mulher teve que trabalhar mais um turno. E ao perceber que mesmo assim, o dinheiro não chegaria à metade do mês, passou a fazer faxina, vender cosméticos, rebolar, rebolar, rebolar. Quase nunca estava em casa, porque precisava trabalhar. Os filhos sabiam que, ou ela trabalhava duro de sol a sol, ou todos passariam fome. O pai: um homem fadado ao fracasso, como todo peso morto, era um chato de galocha. Melhor ficar sem a mãe o dia inteiro, mas ainda assim ter uma mãe, do que tê-la em casa o tempo todo: mas de barriga vazia. Certo dia, tomada por um sofrimento brutal, essa mulher que queria ser gente: matou-se. Deixou os filhos sozinhos. Seu corpo foi encontrado três dias depois de sua morte, caído no valão. Havia jogado-se ali por puro desespero. Na bolsa: um quilo de arroz. Na mão: um quilo de feijão. E na alma: quilo e meio de nada. Depois de uma romaria de dar nó em pingo d’água, os filhos foram parar num orfanato tão ausente, de espaço e gente, que despencaram num abismo mais ausente que a vida que levavam. A mãe: morta. O pai: decadente. ‘E agora: O que será da gente?’  perguntaram. Ouviram o silêncio como resposta. O pai: decadente. A mãe: morta. Nada: como resposta. Os anos: passaram. As crianças: cresceram. O semeador: o vício largou. Por isso caminhava tranquilamente pelo passeio público,  cheio de amor para dar. Iria visitar os filhos. Iria refazer sua vida. Mas antes passou no cemitério e levou flores para a esposa morta. Antes limpou os pés no capacho da porta. Antes bateu três vezes no batente da casa. Antes: medo. Agora: arvoredo. Depois: amor. Os filhos: perdoariam-no. A mulher: descansaria em paz ao lado do ‘capiroto’. Enfim: ‘quem fala demais dá bom dia à cavalo’  pensou. "Nós tínhamos tudo. Agora não temos nada. Melhor ficar calado e abraçar meus filhos". Enfim.



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Comentários

  1. Gilberto da Silva Fonseca30 de julho de 2011 às 10:22

    Muito bacana esse texto, Betto. Você toca na ferida, levanta várias questões importantíssimas, mas não julga. É o personagem que fala, que sente, que vive. Muito bom ver um escritor tão antenado com a realidade. Parabéns!

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  2. O texto "We had it all" é ótimo! Adoro essa junção que vc faz entre texto e música. Delícia Betto! Chic é ser inteligente como Betto Barquinn! Amo você! Bjs!

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  3. Oi Betto! Cara, descobri o seu blog por acaso. E não é que foi uma grata surpresa? Você escreve muito bem, meu. Já virei seu fã! Abs!

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