UM NOVO VENCEDOR





Dona Iaiá disse que nasci para ser feliz. E a partir daquele dito, não mais sofri. Ela era benzedeira. Sempre trazia um sorriso costurado no rosto como se fosse um patuá. Era dona de um espírito abençoado por Deus. Às vezes fervia umas ervas e preparava-me um banho. Em outras macerava umas flores para abrir meus caminhos. Ela dizia que eu era um fruto maduro. Contou-me que quando nasci, no céu brotou uma estrela. Dia desses confidenciou-me que se fosse um Anjo, apresentar-me-ia ao Ecumenismo. Ao lado dela fui uma coruja. Em seus braços tornei-me um jacaré. Ainda ontem, rente à porta, fui uma cobra d’água. Há cinco minutos fui uma onça. Hoje de manhã experimentei ser uma tartaruga.


Dona Iaiá ensinou-me a transformar-me em qualquer coisa: gente, bicho, vento, fogo, água, ar, terra, areia, pedra de riacho. Fez-me entender que viver é simples. E antes de partir na cauda de um cometa, deixou-me um manuscrito, que dizia:


“Setenta anos vivi e por setenta léguas caminhei. Eu era uma fonte de água cristalina dando de beber a uma cidade inteira. Fui pasto, fui mato, fui o barro deste chão. Vivi por setenta anos inteiros, e ao dobrar o relógio do tempo, parto para um lugar de Luz, onde as rosas são azuis e os azuis são rosas. Mas antes de partir, deixo-te a minha estrela, para que junto à tua estrela, ela possa brilhar. E a ti que sempre foi o meu Ioió, deixo-te na memória, os lampejos de Iaiá. 


Beijos da tua sabiá”.


O amor é o único sentimento que trago aqui dentro.




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