PEDAÇO DE MIM
Volta para casa, menino. Deixa de lado esse gosto pela aventura e dispa-se dessa armadura. A amargura é dura. E como dura essa arma dura... Faz de conta que o mundo é bom. Finge ser quem você é. Mente dizendo que a humanidade é boa, porque se a mentira for convincente, a gente acredita. Eu devia ter lhe posto de castigo. Devia ter lhe ajoelhado no milho quando você era criança. Devia ter lavado a sua boca com sabão, toda vez que você falou palavrão. Assim teria feito o meu papel de pai amantíssimo. Mas, não. Fui passar a mão na sua cabeça, e agora tenho medo que você enlouqueça. Eu lhe poupei do proibido. Fiz você pensar que o mundo girava em torno do seu umbigo. Não quis que você dormisse com fome. Quis lhe dar meu nome; meu sobrenome. E agora você me apunhala pelas costas, dizendo que de mim não há quem gosta. Eu devia ter lhe dado uma surra. Devia ter posto pimenta na sua chupeta. Sou contra a violência. Mas não aguento a sua ausência. Ausência de amor. Ausência de carinho. Olha para mim, menino: me diz, você me odeia? Eu que nunca fui chave de cadeia, estou pronto para lhe prender. Melhor seria lhe amarrar ao pé da cama. Melhor, quem sabe, colacar-lhe um cadeado. Uma corrente nas mãos. Um arreio na boca. Faz de conta que sou seu amigo. Mas não esquece: sou seu pai. Preciso saber aonde vai. Quero entender de onde vem. Você saiu das minhas entranhas, garoto. Desde o dia que a sua mãe partiu, fui eu quem lhe pariu. Fui eu quem lhe pôs no mundo. Este mundo imundo. Este mundo vagabundo. Mas não me obrigue a dizer essas coisas. O mundo é bom, filho adorado. A vida é bela, pedaço de mim.
Lâmina da minha navalha, faz de conta que sou seu filho, que faço de conta que você é meu pai. Larga esse crack, tesouro de minh’alma. Essa droga não vale nada. Só serve para deixar a alma desabitada.
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