SEGURA NA MÃO DE DEUS






Toda vez que caminhava por Copacabana, via um menino parado no calçadão, vendendo bala. Ele estava lá todos os dias. A sua presença era tão constante, que vê-lo tornou-se para mim, familiar. De tanto observá-lo, sinto que ele passou a fazer parte da minha vida. Eu sabia com exatidão que se ele sorrisse, o dia seria lindo. Se estivesse com o semblante carregado, era chuva na certa. Por via das dúvidas, antes de sair de casa, levava um guarda-chuva. Ele era o meu castelo de areia defronte ao mar: frágil e susceptível às alterações climáticas. E como tudo na vida tem dois lados, ele também era minha âncora e meu porto seguro. 

Tornamo-nos amigos sem trocarmos uma palavra. E quando as coisas são assim, melhor cumplicidade não há. Eu sabia o que ele queria dizer pelo olhar. Ele adivinhava o que eu pensava. Depois de muito tempo, entre idas e vindas, resolvi parar e perguntar se ele precisava de alguma coisa. Após um largo suspiro, tão extenso quanto a Muralha da China, ele respondeu: “Preciso de um pai”. Eu, que tinha feito a pergunta, fiquei sem resposta. Afinal de contas, a resposta estava lá: dentro de mim. Não iria sair nem por um decreto, porque estava em tão bom lugar, vivendo de bem consigo mesma, que seu estado era de meditação profunda. Então depois de um esforço sobrehumano, olhei para dentro dos seus olhos, que de tanto me olharem também eram os meus olhos, e perguntei: “Você quer ser adotado?”. Ele respondeu: “Sim, senhor”. E mais uma vez, eu que era bom de perguntas, e péssimo de respostas, pensei: “Meu Deus, por que fizeste esse garoto cruzar o meu caminho? Eu, que sou um poço sem fundo, que me alimento dos meus pensamentos, que sou uma alma do mundo, como posso um filho ter? Meu Deus, eu que sou solteiro, não tenho mulher para me ajudar, como vou de uma criança cuidar?”. Fiz perguntas a Deus como quem procura agulha no palheiro. Como sempre fui movido por perguntas, as respostas nada importavam naquele instante. Sabia todas. Afinal de contas, elas moravam em mim. E como aquele garoto, embora não fosse sangue do meu sangue, nem carne da minha carne, era sem sombra de dúvida, espírito do meu espírito, e mesmo se não fosse, daquele instante em diante, seria, a resposta foi sim. Ele tinha autoridade moral para me pedir aquilo. Mais do que isso: se ele me ordenasse, eu obedeceria.

Sem pensar duas vezes, tirei-o do calçadão e o trouxe para o meu mundo: um quarto e sala em Copacabana de costas para o mar. Hoje somos de fato pai e filho. Agora entendo porque ele entrou na minha vida: para não me deixar esquecer quem sou. Ele é um ungido de Deus. Pertence ao ministério do amor. Quando uma coisa dessas cai no nosso colo, não podemos perder tempo: é a mão de Deus tocando nosso ombro. Por isso, o jugo é tão leve, que essa cruz, qualquer um de nós consegue carregar.

“O presente do passado: a memória. O presente do presente: a percepção. O presente do futuro: a esperança” –, disse Agostinho de Hipona. “O corpo pode ser demolido, não o seja nunca o espírito”, – Joaquim Nabuco, – completou.   

“Segura na mão de Deus e vai...”.





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