REFAZENDA




Ter tido uma infância muito pobre me traz um certo estranhamento. É como se eu não tivesse direito a dizer o que penso. Como se minha opinião não tivesse o menor valor. Acho que é devido a uma certa quota de silêncio e obediência exacerbados, a que fui obrigado a calar a alma. Fui criado para obedecer. Fizesse o que fizesse, tinha que dizer sim. E se ficasse infeliz com o destino cruel a que fui condicionado, ali estava a chance de crescer através da resignação. Era como se a infelicidade fosse meu porto seguro. Da dor, eu gostava. Mas a felicidade, que era um corpo estranho ao meu, me dava tristeza. Eu tinha o salvo conduto nas mãos. Podia ir e vir, desde que abaixasse a cabeça. Esta ideia de viver ajoelhado, de costas para a vida, nunca me agradou. Mas eu fui adestrado feito um mamulengo de circo, a pensar que não podia pensar. Disseram-me que eu não tinha mundo. Então aprendi a viver nos escombros do Apocalipse, esperando o Dia do Juízo Final. Não era masoquismo: era aceitação. Se eu era nada o que podia esperar além de nada? Deixa que eu respondo: nada.

Lembrei-me agora da casinha simples, teto de palha, paredes de barro, chão de terra batida. O que mais me incomodava naquela casa era a hora do jantar. No lar da minha infância não tinha o que comer. Mesmo assim, mamãe fazia o nosso prato e sentava-se à mesa para nos ver regurgitar. Enquanto ruminávamos, ela enchia um copo de café, acendia um cigarro, e ficava ali: observando-nos. Quando eu perguntava: Mãe, por que a senhora não janta com a gente? Ela respondia: “Não tenho fome, não. A esta altura da vida nada me desce. Por isso tomo café. Ele me limpa a garganta”. Eu achava estranho aquilo, mas ela era o adulto e eu a criança: tinha que aceitar. Anos depois, quando era eu o responsável por botar comida em casa, percebi que mamãe já não sentava-se à mesa trazendo o cigarro no dedo e o café no copo. Ainda curioso, perguntei: Mãe, onde foi parar o cigarro e o copo? E ela respondeu: “No passado”. Ela não precisou dizer mais nada. A tempos que eu sabia que ela não jantava conosco porque a comida era escassa. Naqueles tempos de penúria e de dor, a opção era: ou ela comia ou os filhos passavam fome. E como toda mulher é fiel às suas escolhas, ela optara por não comer. Mamãe deve ter sofrido muito na vida. Tanto que esqueceu o sorriso em algum lugar do passado. Deve ter perdido-o no mesmo dia em que decidiu passar fome. Não por ter deixado o apetite de lado, mas por ter desistido de viver. Deve ser por isso que da minha infância para cá, nada me apetece.

Hoje somos ricos. Entretanto a riqueza não nos impressiona. Do dinheiro, usufruimos o suficiente para comer. Alguns dizem que temos mentalidade de pobre. E temos mesmo. Filosoficamente falando, ainda estamos naquela casinha de joão-de-barro, atolados na terra até a raiz dos cabelos. Eu ainda vivo de costas para o mundo. Ainda falo: sim senhor, sim senhora. Ainda abaixo a cabeça diante da vida. Ainda me considero um zero à esquerda. Não vou mudar. Mas não tenho raiva, não senhor. Agora que sou doutor, posso ter o que quiser: e raiva não quero, não.

“Não espere nada da vida” – disse-me mamãe no dia que eu nasci. Ao que anuí: Só serei feliz quando eu morrer.    





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