VENENO DA LATA
Quando eu era criança, mamãe comprava uma bebida chamada “EU NÃO ACREDITO QUE NÃO É REFRIGERANTE”. A bebida tinha gosto de refrigerante de cola. Embora fosse um pouco mais doce. O refrigerante tinha uma quantidade exagerada de gás. Era só tomar uma gota e a gente eructava duas horas. Mamãe dizia para não beber muito, porque fazia mal ao estômago. Lembro-me que ela usava aquele troço para amaciar carne de segunda. A carne ficava mais macia que filet mignon. A bebida tinha mil e uma utilidades. Servia como alvejante de roupa, pois continha água sanitária. Servia para clareamento dentário, pois tinha peróxido de hidrogênio. Servia como veneno de rato. Servia como vasodilatador. Servia para pintar o cabelo. Servia de desentupidor de pia, de desinfetante, de antídoto para veneno de cobra, e de espermicida. Só para beber é que não prestava. Dava dor de barriga, nó nas tripas, diverticulite, câncer no intestino, infarto, AVC, e mal súbito. Uma bebida que entre outras coisas, matava, e a gente tomava aquilo como se fosse água. Baldes e mais baldes. Litros e mais litros. Aquilo era a bebida do diabo! Devia ser engarrafado na destilaria do capeta. Era ruim que só, mas todo mundo ficava viciado. Tinha nicotina? Sei lá: só sei que fazia um mal danado. Papai, coitado, que nunca imaginou morrer de morte matada, mas de morte morrida, acabou morto pela bebida. Soube até que mulher grávida não podia tomar, pois era abortivo. Se a parturiente desse sorte, e a gravidez vingasse, o bebê nascia abobalhado. Aquilo era coisa do diabo.
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