JOGADO NA RUA
De Santiago
a Buenos Aires:
— Não há dúvida de que
Caim matou Abel, — disse-me um ilustre
desconhecido, — enquanto conversávamos em
um banco de praça no Parque Metropolitano de Santiago. E mirando o Cerro San
Cristóbal, lembrei-me de ti. Recordei quantas vezes dissemos “yo te amo” um ao
outro. E de como a nossa vida mudou desde então. Lá se vão vinte e cinco anos…
Fizemos Bodas de Prata separados. Comemoramos o nosso amor com “Paso de Piedra
Cabernet Sauvignon”. Brindamos à solidão.
Depois de passar o dia
entre a Plaza de la Ciudadania, o Palácio de La Moneda, o Museo Chileno de Arte
Precolombino, a Plaza de Armas, a Catedral Metropolitana, o Museo Histórico
Nacional, a Municipalidad de Santiago, o Mercado Central, o Museo Nacional de
Bellas Artes, La Chascona – Fundación Pablo Neruda, o Museo de la Solidariedad
Salvador Allende, e tantos outros pontos turísticos da cidade, sentei-me aqui
neste banco, com o objetivo de pensar na vida. E eis que em um simples colóquio
de ocasião, ao ouvir um comentário que não tinha nada a ver contigo, peguei-me
a pensar em ti: nas coisas que te disse, nas que de ti ouvi. Escordei-me do dia
em que nos conhecemos; do dia em que o Espírito que sou em ti encarnou; das
juras de amor que fizemos; das promessas inalcançáveis para a raça humana; do
homem que desejei ser e neste em que me transformei; no quanto me dói ter
perdido sem ao menos ter tentado; nos presentes que te dei e que de ti recebi:
enfim, peguei-me a refletir sobre o que angariei e sobre o que desassisti.
Eu, que sempre me orgulhei de não ter medo de errar, acovardei-me tanto diante da vida, que hoje tenho fobias
que a Ciência sequer sabe o nome. O que foi feito dos meus sonhos? Onde está
aquele homem que desejou mudar o mundo? Desde que em Santiago cheguei, e que ao
Chile me entreguei, que a sua imagem (e o que fomos e o que poderíamos ser) não
sai da minha cabeça. Quando deixei-te, Buenos Aires, ‘para sempre’ parecia um
lugar distante. Hoje, a cada dia que passa, ‘nunca mais’ está cada vez mais
perto de mim. Será que jamais nos veremos? Será que um dia nos encontraremos? Será que o mundo, que é tão grande, na verdade é tão pequeno?
Será que o amor de um homem por uma cidade, e de uma cidade por um homem, é
capaz de sobreviver a distância? Buenos Aires, o meu amor por ti é um lago cheio de
peixes. E por mais que eu tente, no fundo do meu lago não há o que pescar. Eu
vim para Santiago com o objetivo de te esquecer. E tu estás aqui dentro,
fazendo meu peito queimar, como queima o peito de um homem atingido por um raio.
Eu olho para o Museo Arquológico de Santiago e te vejo. Refugiu-me na Casa
Colorada: e lá tu estás. Corro para o Museo de Arte Colonial de San Francisco e
te contemplo em anexo. Tu vives no Museo Interactivo Mirador, no Museo Artequín,
no Museo de Ciencia y Tecnologia, no
Museo Ferroviario e dentro de mim. Tu és aquilo que sou. Por isso, por mais que eu
tente, não consigo apartar-me de ti. Sendo assim, meu amor: volto para
a Argentina. Espera-me, Teatro Colón. Pois é para Buenos Aires que vou. De hoje
em diante, “mi Buenos Aires querido”, só em teus braços hei de viver. Manzana
de las Luces, me aguarde. Estou voltando! Adeus, Santiago. Adeus.
Se Caim matou Abel, eu
não sei. Mas acabo de ressuscitar-te dentro de mim.
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