NOSOTROS
Sometimes:
Pensar às vezes dói, às vezes
arde, às vezes abre ferida na cabeça. Pensar é uma transgressão. Pensar é
aprender a dizer não. Pensar é uma ato iluminado; que às vezes diminuto, às
vezes longo, às vezes estreito, às vezes largo, às vezes recôndito, às vezes
decifrável; machuca a gente. Pensar é saber que de tudo preciso e que nada sei:
nem ao menos o que de fato é preciso. Viver? De certo, não. Navegar, talvez. Sim,
navegar é preciso. Viver, incerto. Pensar é, pois, livrar-se do que está pronto, do
que aparece à nossa frente; depois some, do que é feito de plástico, do que
configura-se em imagem. Eu não quero o que vem de fora para dentro. Eu me
recuso a chamar de meu aquilo que não vem de dentro. Não, o quintal do outro
não é mais verde que o meu. Não, os meus sonhos não cabem em uma gaveta: muito menos em uma caixa de sapato. Não, meu horizonte não nasce para fora: meu porvir vem de dentro. Não, não me apaixono pelo que não me pertence. Não,
o mundo não é pequeno. Não, o mundo não encerra-se em si mesmo. Não, a mentira que há na sociedade não convence como verdade. Não, não há igualdade se um
indivíduo morre de fome: ou assassinado ou maltratado pelo homem; ou vítima de
preconceito, ou desprezado por ser branco ou preto. Não, o dinheiro não traz
felicidade. Não, quem consome é consumido no exato momento em que consome. Não,
o perdão é necessário por mais que a ofensa seja imperdoável. Eu não sei nada,
eu sei. Sim, eu sei que nada sei. Nada desse mundinho pequeno-burguês. Nada dessa gente desocupada. Não, nunca vi Shangri-lá. Não,
nunca li “Horizonte Perdido”. Não, nunca fui ao Himalaia. Não, nunca estive com
James Hilton. Não, mas sei que ele era inglês. Mas é só o que sei. Pois nem sei
ao certo se há alguma coisa depois do arco-íris. Talvez um pote de ouro? Talvez…
Quem sabe um grão de arroz ou um caroço de feijão… Talvez uma tela de John
Constable. Talvez. Meu mundinho preto e branco me impede de ver cor. Nada em
mim é em Technicolor. Nada aqui é colorido em Kinemacolor. Não aqui fora, — eu digo.
Aqui dentro, sim. Aqui, onde bate o sofrimento. Aqui, onde há um coração que é
simples. Aqui, onde a vida passa feito agulha e linha; feito luva e mão. Aqui,
onde a alma se situa. Aqui, onde um grama é o peso da pena que flutua. Aqui,
onde eu sou mais fino que uma folha de caderno. Aqui, não lá. Aqui mesmo… onde
há o precário, o simplório, o sujeito, o singular. Aqui, onde o artificial não
me emociona e o falso não me convence. Aqui, onde o pensamento voa, a
imaginação corre, a ideia paira sobre o galho d’uma árvore e o raciocínio flui
como uma folha ao vento. Leve como aquela folha de caderno que há aqui dentro. Meu tempo é o infinito. Meu presente é a eternidade. Sou o dito e o não dito. Sou o supracitado. Minha vida é fina flor. Minha vida-flor. Minha flor de laranjeira. Meu catavento solto ao vento. Minha lida. Meu ardor.
Em um mundo em que o amor é
conversa fiada, o amor não vale nada. Eu não confio em imagens discordantes.
Confio no poder da palavra, em olhos que se encontram, na literatura que
liberta, e em lábios que pedem perdão. Acredito em sinceridade, detesto vaidade;
desprezo até o cheiro do egoísmo: porque narcisismo me enjoa. Egocêntrico é
sujeito ensimesmado. Prefiro gente que sai um pouco da concha e enxerga o mundo
a sua volta: e logo que encontra o que procura, sai para dar uma volta; depois
volta e revolta como um caracol. Por que caminho em zigue-zague? Porque andejo em espiral. Gosto de costurar o sentido das coisas, colocar botões, fitas,
colchetes, fechos, bolsos, mangas de blusa, pernas de calça, braguilha, dar um
feitio, alinhavar, levar à máquina, cerzir e coser. Gosto do que nasce ignorante
e morre iluminado. Gosto do que não mancha. Pois gosto de atravessar rios em
pontes fictícias. Gosto de me arriscar com a cabeça nas nuvens e os pés ao rés-do-chão. Gosto de voar
também. Minha mente às vezes parece pipa. Noutras, balão. Tenho muitos mundo
dentro dos meus mundos. Mundos particulares. Mundos privados. Oásis de
desertos. Mundos que ninguém vê. Mundos que são só meus porque em mim habitam.
Do lado de fora de mim, comprem a imagem que quiserem ver. Aqui dentro, onde
minh’alma estancia, moro eu. Se você não entendeu, relaxa. Eu não quis me
fazer entender. Há coisa que não entendo também: por pura vontade de não entender. Quando quero sou hermético.
Quando quero sou difícil de ser compreendido. Afinal, quanto mais sei, mas sei que nada sei. Pensar
tem dessas coisas… encerra-nos no quarto de nós mesmos; quarto
este sem portas e sem janelas: sem vida exterior. Em mim portas e janelas abrem
para dentro: não abrem para fora.
Há em mim um jardim de inverno.
É nele que minh’alma habita.
NOSOTROS™ © copyright by Carlos
Alberto Pereira dos Santos 2013
TODOS OS DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS BY CARLOS ALBERTO PEREIRA DOS SANTOS
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